4/21/2017

TESTEMUNHAR A RESSURREIÇÃO

A paz esteja com vocês (Jo 20,19-31)

A paz! Reconciliar e construir a paz! Esta é a missão que recebem. Hoje, o que mais faz falta é a paz: refazer os pedaços da vida, reconstruir as relações quebradas entre as pessoas. Relações quebradas por causa da injustiça e por tantos outros motivos. Jesus insiste na paz.

João 20,19-20: A experiência da ressurreição
Jesus se faz presente na comunidade. As portas fechadas não podem impedir
que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Até hoje é assim! Quando estamos reunidos, mesmo com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje, a primeira palavra de Jesus é e será sempre: “A paz esteja com vocês!” Ele mostrou os sinais da paixão nas mãos e no lado. O ressuscitado é crucificado! O Jesus que está conosco na comunidade não é um Jesus glorioso que não tem mais nada em comum com a vida da gente. Mas é o mesmo Jesus que viveu na terra, e traz as marcas da sua paixão. As marcas da paixão estão hoje no sofrimento do povo, na fome, nas marcas de tortura, de injustiça. É nas pessoas que reagem, lutam pela vida e não se deixam abater que Jesus ressuscita e se faz presente no meio de nós.

João 20,21: O envio: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês”
É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a
missão, a mesma que ele recebeu do Pai. E ele repete: “A paz esteja com vocês!” Esta dupla repetição acentua a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só a ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

João 20,22: Jesus comunica o dom do Espírito
Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo”. É só mesmo com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que ele nos dá. Para as comunidades do Discípulo Amado, Páscoa (ressurreição) e Pentecostes (efusão do Espírito) são a mesma coisa. Tudo acontece no mesmo momento.
João 20,23: Jesus comunica o poder de perdoar os pecados
O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de
superar as barreiras que nos separam: “Aqueles a quem vocês perdoarem os pecados serão perdoados e aqueles a quem retiverdes serão retidos!” Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade (Jo 20,23; Mt 18,18). No evangelho de Mateus é dado também a Pedro (Mt 16,19). Aqui se percebe a enorme responsabilidade da comunidade. O texto deixa claro que uma comunidade sem perdão nem reconciliação já não é comunidade cristã.

João 20,24-25: A dúvida de Tomé
Tomé, um dos doze, não estava presente. E ele não crê no testemunho dos outros. Tomé é exigente: quer colocar o dedo nas feridas da mão e do pé de Jesus. Quer ver para poder crer! Não é que ele queria ver milagre para poder crer. Não! Tomé queria ver os sinais das mãos e no lado. Ele não crê num Jesus glorioso, desligado do Jesus humano que sofreu na cruz. Sinal de que havia pessoas que não aceitavam a encarnação (2Jo 7; 1Jo 4,2-3; 2,22). A dúvida de Tomé também deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição.
João 20,26-29: Felizes os que não viram e creram
O texto começa dizendo: “Uma semana depois”. Tomé foi capaz de sustentar

sua opinião durante uma semana inteira. Cabeçudo mesmo! Graças a Deus, para nós! Novamente, durante a reunião da comunidade, eles têm uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. E novamente recebem a missão de paz: “A paz esteja com vocês!” O que chama a atenção é a bondade de Jesus. Ele não critica nem xinga a incredulidade de Tomé, mas aceita o desafio e diz: “Tomé, venha cá colocar seu dedo nas feridas!”  Jesus confirma a convicção de Tomé, que era a convicção de fé das comunidades do Discípulo Amado, a saber: o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado! É neste Cristo que Tomé acredita, e nós também! Como ele, digamos: “Meu Senhor e meu Deus!” Esta entrega de Tomé é a atitude ideal da fé. E Jesus completa com a mensagem final: “Você acreditou porque viu! Felizes os que não viram e no entanto creram!” Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio é o mesmo que morreu crucificado!

João 20,30-31: Objetivo do evangelho: levar a crer para ter vida
Assim termina o Evangelho, lembrando que a preocupação maior de João é a Vida. É o que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Mesters, Lopes e Orofino

4/15/2017

O SOL NASCEU! É UM NOVO DIA BENDITO SEJA DEUS, QUANTA ALEGRIA!

A RESSURREIÇÃO DE JESUS (João 20,1-9)
Não há descrição da ressurreição. Ninguém testemunhou o fato mais revolucionário da história. Estamos diante de um mistério. Algo aconteceu, é verdade. Olhando de longe, como Maria Madalena, podemos chegar a acreditar em boatos: Os discípulos vieram de noite e levaram o corpo de Jesus (Mt 28.13). Boatos geram incerteza, medo e tristeza.
Temos que chegar mais perto. Como comunidade cristã, temos de correr a corrida da fé, em busca da fé e da esperança. Como Pedro e o discípulo amado, corremos em velocidades diferentes. Nossas forças não são iguais; uns conhecem atalhos que outros
ignoram. Mas corremos. Buscamos a presença de Jesus Cristo. Este é o nosso objetivo. Buscamos o corpo de Jesus. A corrida da fé em busca da fé nos leva a todos diante do túmulo vazio e escuro. De fora vemos que o corpo de Jesus não está mais ali onde pensávamos encontrá-lo. Inacreditável! Será que estamos vendo certo? Temos que verificar mais de perto ainda. Temos de entrar no túmulo vazio e escuro, temos de passar por ele. Temos de passar com Cristo pela morte (Jo 12.24; Mc 8.34-35). Somente dentro do túmulo se abrirão os nossos olhos: no escuro do túmulo vazio, na ausência do corpo de Cristo, veremos, qual luz no fim do túnel, o brilho da ressurreição. O que fora estava oculto aos nossos sentidos, dentro se evidencia aos olhos da fé. Deus o ressuscitou no terceiro dia!. Crê somente!

Aos nossos sentidos se revela a realidade marcada pela morte em nosso tempo: no rosto dos desempregados, marcados pelo medo e pela incerteza; no rosto de crianças famintas de pão e de carinho; no rosto das moças que vendem sua vida por alguns trocados; no rosto de pessoas corruptas e gananciosas, que não hesitam em usar outros para seu próprio benefício; nas cicatrizes expostas da natureza depredada. Temos que passar pelo vale escuro, pelo túmulo vazio e olhar para além da nossa realidade.
Aos olhos da fé é revelada a possibilidade e a realidade de uma vida
renovada, de um mundo renovado integralmente. Como Pedro e o outro discípulo, nós vamos para casa crendo. Saímos do túmulo repletos de fé e esperança. Saímos renova dos. Fomos do túmulo à procura do corpo de Jesus e saímos de lá como corpo de Cristo. Nós somos o corpo que sumiu. Pela fé nos foi revelado que nossa única esperança está além do túmulo. Passamos por ele. Morremos com Cristo. Saímos dele. Fomos ressuscitados juntamente com Cristo e elevados acima da morte (Cl 3.1-4). Nosso corpo já não se presta para servir à morte, mas à libertação de todas as formas de morte e sofrimento.

Ocorreu um redirecionamento de nossa existência no mundo. Buscamos os valores que estão além e acima da morte. Não mais violência, corrupção, mentira, falta de dignidade, exploração, mas amor, fé, esperança, bondade, alegria. Sem ver a plenitude e a glória da ressurreição, sabemos que nossa vida está guardada em Deus e cremos na palavra dos apóstolos. Nossa vida não é a glória, mas reflexo da mesma.       Para 
o nosso tempo somos luzes no fim do túnel, que indicam para o sol da ressurreição e da vida renovada, que é Jesus Cristo.

Ao sairmos daqui, o que temos a fazer? Através de nossa maneira de viver vamos explicar, tornar presença, tornar corpo, tornar palpável, vivenciável a nova realidade da ressurreição, para que mais gente se sinta animada a dar o passo de fé para além do túmulo.
Nélio Schneider

 Feliz Páscoa!

joaobortoloci@bol.com.br

4/08/2017

DOMINGO DE RAMOS

BENDITO AQUELE QUE VEM EM NOME DO SENHOR! (MT 21,1-12)

Neste primeiro dia da Semana Santa, com certeza não há comunidade no Brasil que não celebre, com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém.  Organizam-se caminhadas e encenações, e muitas pessoas fazem questão de levar alguns ramos abençoados para a casa.
Porém é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade. O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando no v. 5 cita o profeta
Zacarias. Pois Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira, estava fazendo uma releitura de Zacarias 9,9-10. O profeta (conhecido como Segundo Zacarias, pois os capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos) vivia numa situação de grande opressão e pobreza, quando a Palestina e o seu povo eram dominados pelo Império Grego, depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido, manter viva a chama de resistência através da esperança na chegada de um Messias libertador. Ele teria três grandes características: seria rei (9,9-10), bom pastor (11,4-17) e “transpassado”(12,9-14).

Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em Jerusalém, era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do Rei esperado pelos pobres de Javé. Era gesto profético de esperança, algo tão necessário no ministério das Igrejas hoje, infelizmente muito marcadas pela ameaça, frequentemente com mais enfâse sobre o mal do que sobre o bem, de uma suposta dominação de “demônios” e não pela certeza da vitória da graça e da redenção.
Mas o rei anunciado por Zacarias e realizado em Jesus era bem diferente dos
reis dos países de então. Enquanto estes faziam questão de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes, o rei esperado por Zacarias iria entrar em Jerusalém montado em um jumento – o animal do pequeno agricultor. Pois o seu reino seria, não de dominação, opulência e opressão, mas de paz, de justiça e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra.  Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar” (Zc 9,9).
A entrada em Jerusalém de Jesus era verdadeiramente uma entrada triunfal – mas do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, bem como uma viravolta nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressivos dos reinos mundanos e, ao mesmo tempo, era a celebração de Javé, o Deus libertador que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (cf. Ex 3,7). Celebrar a memória deste evento no Domingo de Ramos deve levar-nos a um compromisso maior com a construção de um mundo de paz verdadeira, fruto de justiça, partilha e solidariedade. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que ela é o triunfo da fraqueza de Deus, de sua Cruz, do seu projeto do Reino, pois como disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(1Cor 1,25). Cuidemos de não
transformar a celebração litúrgica em folclore, centrada na figura do celebrante, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que fizeram em Jerusalém, conforme o hino: “Queriam um grande Rei que fosse forte, dominador e, por isso, não creram nele e mataram o Salvador”.  A celebração de Domigo de Ramos é realmente uma vitória, mas uma vitória que vem de fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento de Jesus até a Cruz e a Ressurreição.
Evitemos criar uma caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade, e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de Jesus, isto é, reacender a esperança das pessoas excluídas, marginalizadas, pobres e oprimidas, assumindo cada vez mais ações concretas na busca da construção da “Terra Sem Males”.  É um desafio muito grande para quem tem qualquer ministério de liderança nas Igrejas, ordenado ou não, pois o nosso modelo é o “anti-rei”, Jesus de Nazaré, e não as autoridades pomposas deste mundo.
Tomaz Hughes


3/31/2017

JESUS É O SENHOR DA VIDA

A MORTE E RESSURREIÇÃO DE LÁZARO  (Jo 11,1-45)
1.                    
João 11,1-16: Uma chave para entender o sétimo sinal da ressurreição de Lázaro

Lázaro estava doente. As irmãs Marta e Maria mandam chamar Jesus: “Aquele a quem amas está doente!” (Jo 11,3.5). Jesus atende ao pedido e explica: “Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho de  Deus!” (Jo 11,4). No Evangelho de João, a glorificação de Jesus acontece através da sua morte (Jo 12,23; 17,1). Uma das causas da sua condenação à morte vai ser a ressurreição de Lázaro (Jo 11,50; 12,10). Assim, o sétimo sinal vai ser para manifestar a glória de Deus (Jo 11,4). Os discípulos não entendem (Jo 11,6-8). Jesus fala da morte de Lázaro, e eles entendem que esteja falando do sono (Jo 11,11-15). Ainda não percebem a identidade de Jesus como vida e luz (Jo 11,9-10). Porém, mesmo sem entenderem, eles estão dispostos a ir morrer com ele (Jo 11,16). A doutrina deles é deficiente, mas a fé é correta.
2.                             João 11,17-19:Jesus chega em Betânia
Lázaro está morto mesmo. Depois de quatro dias, a morte é absolutamente certa, o
corpo entra em decomposição e já cheira mal (Jo 11,39). Muitos judeus estão na casa de Marta e Maria para consolá-las da perda do irmão. Os representantes da Antiga Aliança não trazem vida nova. Só consolam. Jesus é que vai trazer vida nova. Os judeus são os adversários que querem matar Jesus (Jo 10,31). As duas mulheres criaram um espaço novo de contato entre Jesus e seus adversários. Assim, de um lado, a ameaça de morte contra Jesus! De outro lado, Jesus chegando para vencer a morte! É neste contexto de conflito entre vida e morte que vai ser realizado o sétimo sinal.


3.                             João 11,20-24: Encontro de Marta com Jesus – promessa de vida e de
ressurreição
No encontro com Jesus, Marta diz que crê na ressurreição. Ela está dentro da cultura e da religião do povo do seu tempo. Os fariseus e a maioria do povo já acreditavam na ressurreição (At 23,6-10; Mc 12,18). Acreditavam, mas não a revelavam. Era fé na ressurreição no final dos tempos, e não na ressurreição presente na história, aqui e agora. Não renovava a vida. Faltava dar um salto. A vida nova da ressurreição só vai aparecer com Jesus.
4.                             João 11,25-27: A revelação de Jesus provoca a profissão de fé

Jesus desafia Marta a dar este salto. Não basta crer na ressurreição que vai acontecer no final dos tempos, mas tem que crer que a ressurreição já está presente hoje na pessoa de Jesus e naqueles que acreditam em Jesus. Sobre eles a morte não tem mais nenhum poder, porque Jesus é a “ressurreição e a vida”. Então, Marta, mesmo sem ver o sinal concreto da ressurreição de Lázaro, confessa a sua fé: “Eu creio que tu és o Cristo, o filho de Deus que vem ao mundo”.
5.                             João 11,28-31: O encontro de Maria com Jesus
Depois da profissão de fé, Marta vai chamar Maria, sua irmã. É o mesmo processo que já encontramos na chamada dos primeiros discípulos: encontrar, experimentar, partilhar, testemunhar, conduzir até Jesus. Maria vai ao encontro de Jesus, que continua no mesmo lugar onde Marta o tinha encontrado. Tal como a sabedoria, que se manifesta nas ruas e nas encruzilhadas (Pr 1,20-21), assim Jesus é encontrado no caminho fora do povoado. Hoje, tanta gente busca saídas para os problemas da sua vida nas ruas e nas encruzilhadas! João diz que os judeus acompanhavam Maria. Pensavam que ela fosse ao sepulcro do irmão. Eles só entendiam de morte, e não de vida!
6. 
                            João 11,32-37: A resposta de Jesus
Maria repete a mesma frase de Marta: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Ela chora, todos choram. Jesus se comove. Quando os pobres choram, Jesus se emociona e chora. Diante do choro de Jesus, os outros concluem: “Vede como ele o amava!” Esta é a característica das comunidades do Discípulo Amado: o amor mútuo entre Jesus e os membros da comunidade. Alguns ainda não acreditam e levantam dúvidas: “Esse que curou o cego, por que não impediu a morte de Lázaro?”
7.                             João 11,38-40: Retirem a pedra!

Pela terceira vez, Jesus se comove (Jo 11,33.35.38). É assim que João acentua a
humanidade de Jesus contra aqueles que, no fim do século I, espiritualizavam a fé e negavam a humanidade de Jesus. Jesus manda tirar a pedra. Marta reage: “Senhor, já cheira mal! É o quarto dia!” Novamente, Jesus a desafia, apelando para a fé na ressurreição, aqui e agora, como um sinal da glória de Deus: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”
8.                             João 11,41-44: A ressurreição de Lázaro
Retiraram a pedra. Diante do sepulcro aberto e diante da incredulidade das pessoas, Jesus se dirige ao Pai. Na sua prece, primeiro, faz ação de graças: “Pai, dou-te graças, porque me ouviste. Eu sabia que tu sempre me ouves!” O Pai de Jesus é o mesmo Deus que sempre escuta o grito do pobre (Ex 2,24: 3,7). Jesus conhece o Pai e confia nele. Mas agora ele pede um sinal por causa da multidão que o rodeia, para que possa acreditar que ele, Jesus, é o enviado do Pai. Em seguida, grita em alta voz: “Lázaro, vem para fora!” E Lázaro vem para fora. É o triunfo da vida sobre a morte, da fé sobre a incredulidade! Um agricultor do interior de Minas comentou: “A nós cabe retirar a pedra. E aí Deus ressuscita a comunidade. Tem gente que não quer tirar a pedra e, por isso a comunidade deles não tem vida!”

Mesters e Orofino

O ENCONTRO COM O CEGO

É CONVIVENDO QUE OS OLHOS SE ABREM (Jo 9,1-41)

O texto sobre o qual meditamos é comprido. Mas é um texto muito vivo. Difícil de ser cortado pelo meio. Trata da cura de um cego, a quem Jesus devolve a luz aos olhos. É uma história cheia de simbolismos. Temos aqui mais um exemplo concreto de como o Quarto Evangelho tira raio-X para revelar o sentido mais profundo que existe escondido dentro dos fatos. É o sexto sinal, realizado em dia de sábado (Jo 9,14) e ligado à Festa das Tendas (Jo 7,2.37), que era a festa da água e da luz.
As comunidades do Discípulo Amado identificaram-se com o cego de nascença e com a
sua cura. Cegas desde o nascimento por causa da prática legalista da Palavra de Deus, elas conseguiram enxergar a presença de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Para chegar a isso, tiveram que fazer uma travessia cheia de conflitos e de perseguições. Por isso, pela descrição das várias etapas e conflitos da cura do cego de nascença, descreveram também o itinerário espiritual que elas mesmas percorriam, desde a escuridão da cegueira até a luz plena da fé esclarecida em Jesus.
1.                             João 9,1-5: O ponto de partida: cegueira a respeito do mal que existe no mundo
Ao verem o cego, os discípulos perguntaram: “Quem pecou, ele ou os pais, para ele nascer cego?” Naquela época, todo sofrimento era visto como castigo de Deus por algum pecado. Esta mentalidade precisava ser combatida. Associar um defeito físico ao pecado era uma das maneiras de os sacerdotes da Antiga Aliança manter seu poder sobre o povo. Para os saduceus e fariseus, um defeito físico ou uma doença eram sinais da maldição de Deus sobre a pessoa. Jesus não era desta opinião e corrigiu os discípulos. Não existe pecado na pessoa. “Nem ele nem os pais pecaram, mas para que nele sejam manifestadas as obras de Deus!” Obra de Deus é o mesmo que Sinal de Deus. Aquilo que para a época era sinal da ausência de Deus, para Jesus vai ser sinal da sua presença luminosa no meio de nós. Ele disse: “Enquanto é dia, tenho que realizar as obras do Pai que me enviou. Quando vem a noite, já não dá mais para trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” O Dia dos Sinais começou a raiar quando Jesus realizou o primeiro sinal em Caná. Mas o Dia está chegando ao fim e logo será Noite. A noite é a morte de Jesus.
2.                             João 9,6-7: O sinal do enviado de Deus


Jesus cuspiu na terra, fez lama com sua saliva, aplicou sobre os olhos do cego e pediu que fosse lavar-se na piscina de Siloé. O homem foi e ficou curado. Este é o sinal! João comenta, dizendo que Siloé significa enviado. Jesus é o Enviado do Pai que realiza as obras, os sinais do Pai. O sinal deste “envio” é que o cego começou a enxergar. E, tal como Deus criara o ser humano a partir do barro, Jesus vem recriar as pessoas. Nele, somos novas criaturas (2Cor 5,17).
3.                             João 9,8-14: A base da fé é a humanidade de Jesus

A primeira reação veio dos vizinhos e das pessoas chegadas. O cego era muito conhecido. Eles ficaram na dúvida: “Será que é ele mesmo?” O cego respondia: “Sou eu mesmo!” Perguntaram: “Como é que se abriram seus olhos?” O que antes era cego tem que testemunhar: foi o homem Jesus quem me abriu os olhos. O fundamento da fé em Jesus é aceitar que ele é um ser humano igual a nós. Os vizinhos perguntaram: “Onde está ele?” – “Não sei!” Eles não ficaram satisfeitos com as respostas do cego. Para tirar tudo a limpo, levaram o homem até os fariseus, que eram as autoridades religiosas. Aquele dia era um sábado! Em dia de sábado era proibido exercer a medicina.
4.                             João 9,15-17: Jesus é o profeta, ele responde às aspirações do povo

Diante da polêmica criada pelo sinal de Jesus, o caso foi para as autoridades religiosas.
O homem agora testemunha o sinal de Jesus diante dos fariseus, contando tudo de novo. Cegos na sua observância das leis, alguns fariseus comentaram: “Ele não é de Deus, porque não observou o sábado!” Não aceitavam que o homem Jesus fosse um sinal de Deus por fazer tal coisa num dia de sábado. Mas outros se questionavam: “Como é que alguém, sendo pecador, pode realizar tais sinais?” Aí perguntaram ao cego: “E você, o que nos diz a respeito de Jesus?” O homem avançou no seu testemunho. Agora, para ele, Jesus “é um Profeta!” 
5.                             João 9,18-23: Cegos pelo preconceito da lei, os fariseus não aceitam o testemunho da lei
A terceira reação vem dos pais. Os fariseus, agora chamados de judeus, não
acreditavam que o rapaz tivesse sido cego. Achavam que fosse uma fraude montada. Por isso, mandaram chamar os pais e perguntam: “Este é o filho de vocês? Ele nasceu cego? Se nasceu cego, como é que agora enxerga?” Com muita cautela, os pais responderam: “É nosso filho e ele nasceu cego! Como agora enxerga não sabemos, nem sabemos quem o fez enxergar. Vocês interroguem a ele. Ele tem idade!” A cegueira dos fariseus gerava medo no povo, pois quem fizesse a profissão de fé em Jesus como Messias seria expulso da sinagoga. A conversa com os pais revelou a verdade, testemunhada por duas pessoas. Mas as autoridades religiosas se negaram a aceitá-la. A cegueira delas era maior que a evidência. Elas, que tanto insistiam na observância da lei, agora não queriam aceitar a lei que declarava válido o testemunho de duas pessoas (Jo 8,17).
6.                             João 9,24-34: O discípulo não é maior que o mestre. O mestre foi rejeitado…
Chamaram de novo o cego e disseram: “Dá glória a Deus! Sabemos que este homem
é um pecador!” Dar glória a Deus significava: “Peça perdão pela mentira que você nos pregou!” O cego tinha dito: “Ele é um profeta!” Conforme os fariseus, ele deveria ter dito: “Ele é um pecador!” Mas o cego era vivo. Ele disse: “Se ele é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora estou enxergando!” Contra fato não vale argumento! De novo, os fariseus perguntaram: “O que ele fez? Como abriu seus olhos?” O cego respondeu com ironia: “Eu já disse a vocês! Vocês também querem tornar-se discípulos dele?” Responderam: “Você, sim, é discípulo dele. Nós somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés. Mas esse Jesus, nós não sabemos de onde é!” Novamente, com fina ironia, o cego disse: “Espantoso! Vocês não sabem de onde ele é, e ele me abriu os olhos! Se este homem não viesse de Deus, não seria capaz de fazer um sinal desses!” Confrontado com a cegueira dos fariseus, a luz da fé cresceu dentro do cego. Ele rompeu com a velha observância da Lei de Moisés, afirmando que quem lhe abriu os olhos só pode ser alguém que veio de Deus. Esta profissão de fé resultou em sua expulsão da sinagoga. Assim acontecia também no fim do século I. Quem quisesse professar sua fé em Jesus tinha de romper laços familiares e comunitários. Assim acontece até hoje. Quem decide ser fiel a Jesus sofre e corre o perigo de tornar-se um excluído em sua própria família e vizinhança.
7.                             João 9,35-38: A nova comunidade: Jesus o acolhe e ele se entrega

Jesus não abandona quem por causa dele padece ou é perseguido. Quando soube da expulsão, procurou o homem e o ajudou a dar mais um passo, convidando-o a assumir sua fé no Filho do Homem. Ele respondeu: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus respondeu: “Você está olhando para ele. Sou eu que estou falando com você!” O cego exclamou: “Creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus. A atitude do cego diante de Jesus é de total confiança e de inteira aceitação. De Jesus ele aceita tudo. Esta é a fé que sustenta as comunidades do Discípulo Amado. 
8.                             João 9,39-41: Uma reflexão final

O cego, que não enxergava, acaba enxergando melhor que os fariseus. As comunidades, que antes eram cegas, descobrem a luz. Os fariseus, que pensavam enxergar corretamente, são mais cegos que o cego de nascimento. Presos à velha observância, eles mentem quando dizem que veem. O pior cego é aquele que não quer enxergar! Os fariseus. Na verdade, continuam cegos.

Mesters, Lopes e Orofino

3/22/2017

JESUS: ÁGUA VIVA

Samaritana: história de uma sede (Jo 4,5-42)

“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede…” (Jo 4,15)

Vamos, pois, buscar inspiração no encontro instigante de Jesus com a Samaritana, junto a um poço.
Assim como a água, necessária para a vida, é preciso extraí-la do fundo da terra, também a água do Espírito é preciso tirá-la das profundezas de si mesmo.
No início do relato vemos uma mulher caminhando em direção ao poço de Siquém em busca de água; ela vive um “eu fragmentado”, perdida em sua solidão, sedenta de um sentido para sua existência…

Tinha graves problemas, estava confusa, em toda sua vida havia buscando o grande amor. No entanto, seus casamentos fracassados continuavam a perturbá-la. Era uma mulher que havia se perdido no caminho: tantos cântaros quebrados, tantos pedaços para recolher.
Jesus rompe com as fronteiras culturais e religiosas, assenta-se junto ao poço de Jacó e, através de um diálogo provocativo, ajuda a mulher samaritana a encontrar, dentro dela mesma, esse centro de onde mana sem cessar uma água que mata a sede, e não buscá-la em tantos poços secos ou rachados.
Com sua presença instigante, Jesus ajuda a mulher a integrar suas rupturas existenciais, reconstruindo-a como pessoa, a partir de sua própria interioridade.
O encontro com Jesus fez a samaritana viver uma verdadeira “páscoa”, passando de uma vida trivial e dispersa à missão de anunciar aos outros Aquele com quem se havia
encontrado. Como uma água “que jorra para a vida eterna”, uma torrente de gratuidade percorre a cena e transfigura a mulher. Ela foi sendo conduzida até sua própria interioridade através de um paciente processo que a fez passar da dispersão à unificação, da exterioridade à interioridade, da desarmonia à unidade interior, da solidão à comunhão com os outros.

Ela entra em cena como “uma mulher da Samaria” e sai dela como conhecedora do manancial de “água viva”, consciente de ser buscada pelo Pai para fazer dela uma adoradora. Sua identidade transformada a converte em uma evangelizadora que consegue, através de seu testemunho, que muitos se aproximem deJesus e creiam nele. Aquela que falava de “tirar água” como uma tarefa de esforço e trabalho,
abandona agora seu cântaro: Jesus a fez descobrir um dom que lhe é entregue gratuitamente.
Na realidade, ela passou a ter a sensação de estar nascendo pela primeira vez e que Deus a amava. Caíam as etiquetas. Tudo o que tinha sido, a samaritana, filha de sangues misturados e de religião meio pagã, a mulher com uma vida afetiva fracassada, a amante que, depois de compartilhar sua vida com seis homens, duvidava de ter sido amada de verdade alguma vez… tudo aquilo parecia deixar de existir.
Os véus que cobriam o verdadeiro rosto da mulher do cântaro vazio, foram levados pelo vento. Ela se tornou “pessoa”.

Estamos, aqui, diante de uma vida em processo. Ao longo do relato assistimos a tentativa da mulher de permanecer em um nível superficial e mover-se em seu diálogo com Jesus no âmbito da superficialidade. Uma e outra vez ela procura escapar e desviar a conversação para terrenos que não permitem descer em sua profundidade e que não a deixam enfrentar-se com a verdade de sua existência.
Mas ela não contava com a tenacidade de Jesus e com sua determinação de alargar aquela vida atrofiada. Ao longo do encontro, Ele é o verdadeiro protagonista, o condutor da cena e aquele que marca as estratégias da conversação.

Como hábil pescador, Jesus joga suas redes e lança seus anzóis para tirar a mulher,
com quem dialoga, das águas enganosas da trivialidade e do desejo de auto-justificação que a afogam.
Como bom pastor que conhece suas ovelhas, Jesus a faz sair do deserto da superficialidade, vai guiando-a para a profundidade e autenticidade, para a terra do dom da água viva.
Como amigo que busca criar relações pessoais, em nenhum momento emite juízos morais de desaprovação ou condenação: em lugar de acusar, prefere dialogar e propor, emprega uma linguagem dirigida ao coração da mulher.

Como “expert” em humanidade, Jesus mostra-se profundamente atento e interessado pela interioridade de sua interlocutora e lhe faz descobrir o manancial que pode brotar
do mais profundo dela mesma.
Revela-lhe também a interioridade de Deus como Pai que busca adoradores em espírito e em verdade.
Jesus desperta a samaritana a cair na conta que é preciso abrir-se a um “manancial” novo, que lhe vem através d’Ele e que “brota em seu interior” de um modo permanente. Ele é o manancial e com sua presença desperta o manancial interior da samaritana, entupido.

“Dá-me um pouco de sede porque estou morrendo de água!”
Eis o clamor da nossa geração que tendo quase tudo, parece que não consegue descobrir o sentido da própria existência. Morre de sede junto ao poço de água viva.
A sede se refere à busca de sentido presente em todo ser humano, busca daquilo que
traz definitivamente a paz: a “água viva” que coincide com o “dom de Deus”.
Por isso, o relato se situa intencionadamente em chave de oferta: “se conhecesses o dom de Deus…”

Acabou-se o tempo dos templos; a adoração passa pelo coração, é interior e verdadeira, corresponde a uma vida em fidelidade.
A experiência acontece quando escutamos em nosso interior o “eco” que a água viva produz, saciando nossos desejos mais plenos. “Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha para o Pai” (S. Inácio de Antioquia)
Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude.

Adroaldo Palaoro

3/11/2017

"LEVANTAI-VOS. NÃO TENHAIS MEDO"

ESCUTAR JESUS Mateus 17,1-9


O centro desse relato complexo, chamado tradicionalmente a «transfiguração de Jesus», é ocupado por uma voz que vem de uma estranha «nuvem luminosa», símbolo que se utiliza na Bíblia para falar da presença sempre misteriosa de Deus, que se nos manifesta e, ao mesmo tempo, se nos oculta.
A voz diz estas palavras: «Este é o Meu Filho, em quem coloquei o meu agrado. Escutai-O». Os discípulos não devem confundir Jesus com ninguém, nem sequer com Moisés ou Elias, representantes e testemunhas do Antigo Testamento. Só Jesus é o Filho querido de Deus, o que tem o Seu rosto «resplandecente como o sol».
Mas a voz acrescenta algo mais: «Escutai-O». Noutros tempos, Deus tinha revelado a Sua
vontade por meio dos «dez mandamentos» da Lei. Agora a vontade de Deus resume-se e concretiza-se num só mandato:«Escutai Jesus». O escutar estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.
Ao ouvir isto, os discípulos caem pelo chão «aterrados de medo». Estão atemorizados por aquela experiência tão próxima de Deus, mas também assustados pelo que ouviram: poderão viver escutando apenas Jesus, reconhecendo só nele a presença misteriosa de Deus?
Então Jesus «aproxima-se, toca-lhe e diz: “Levantai-vos. Não tenhais medo”». Sabe que necessitam experimentar a Sua proximidade humana: o contato da Sua mão, não apenas o resplendor divino do Seu rosto. Sempre que escutamos Jesus no silêncio do nosso ser, as suas primeiras palavras dizem-nos:«Levanta-te, não tenhais medo».
Muitas pessoas só conhecem Jesus de ouvir falar. O Seu nome resulta-lhes familiar, mas o que sabem Dele não vai mais longe do que algumas recordações e impressões de infância. Inclusive, apesar de se chamarem cristãos, vivem sem escutar no seu interior Jesus. E
sem essa experiência não é possível conhecer a Sua paz inconfundível nem a Sua força alentar e sustentar a vida.
Quando um crente se detém para escutar em silêncio Jesus, no interior da Sua consciência escuta sempre algo como isto:
«Não tenhas medo. Abandona-te com toda a simplicidade no mistério de Deus. A tua pouca fé basta. Não te inquietes. Se me escutas, descobrirás que o amor de Deus consiste em estar sempre a perdoar-te. E, se
acreditas nisto, a tua vida mudará. Conhecerás a paz do coração».
No livro do Apocalipse pode-se ler assim: «Olha, estou à porta e chamo; se alguém ouve a minha voz e me abre a porta, entrarei em sua casa». Jesus chama à porta de cristãos e não cristãos. Podemos abrir-lhe a porta ou rejeitá-lo. Mas não é o mesmo viver com Jesus que sem Ele.

José Pagola

joaobortoloci@bol.com.br