6/24/2017

TENHAM UM AMOR FORTE E UMA FÉ FIRME!

 “NÃO TENHAIS MEDO” Mt 10,26-33 

Quando o nosso coração não está habitado por um amor forte ou uma fé firme, facilmente a nossa vida fica à mercê dos nossos medos. Às vezes é o medo de perder prestígio, segurança, conforto ou bem-estar o que nos trava de tomar as decisões. Não nos atrevemos a arriscar a nossa posição social, o nosso dinheiro ou a nossa pequena felicidade.
Outras vezes paralisa-nos o medo de não sermos acolhidos. Atemoriza-nos a possibilidade de ficarmos sós, sem a amizade ou o amor das pessoas. Ter de enfrentarmos a vida diária sem a companhia próxima de ninguém.
Com frequência vivemos preocupados apenas em ficar bem. Nos dá medo fazer o ridículo, confessar as nossas verdadeiras convicções, dar testemunho da nossa fé. Tememos as críticas, os comentários e a rejeição dos outros. Não
queremos ser classificados. Outras vezes invade-nos o temor do futuro. Não vemos claro o nosso caminho. Não temos segurança em nada. Talvez não confiemos em ninguém. Nos dá medo enfrentar o amanhã.
Sempre foi tentador para os crentes procurar na religião um refúgio seguro que nos liberte dos nossos medos, incertezas e temores. Mas seria um erro ver na fé o refúgio fácil dos pusilânimes, dos covardes e ariscos.
A fé confiada em Deus, quando é bem entendida, não conduz o crente a desviar a sua própria responsabilidade ante os problemas. Não o leva a fugir
dos conflitos para encerrar-se comodamente no isolamento. Pelo contrário, é a fé em Deus a que enche o seu coração de força para viver com mais generosidade e de forma mais arriscada. É a confiança viva no Pai que ajuda a superar covardias e medos para defender com mais audácia e liberdade o reino de Deus e a sua justiça.
A fé não cria homens covardes, mas pessoas resolutas e audazes. Não fecha os crentes em si mesmos, mas abre-os mais à vida problemática e conflitiva de cada dia. Não os envolve na preguiça e na comodidade, mas anima-os para o compromisso.
Quando um crente escuta verdadeiramente no seu coração as palavras de Jesus: “Não tenham medo”, não se sente convidado a fugir de seus compromissos, mas alentado pela força de Deus a enfrentá-los.

Fonte: Instituto Humanitas, 23/06/2017.

5/20/2017

"NÃO VOS DEIXAREI ÓRFÃOS" (João 14,18)

O Espírito da Verdade defende a comunidade (João 14,15-21)

No evangelho proposto para a liturgia deste final de semana, Jesus segue sua conversa com a comunidade de discípulos e discípulas. O contexto é a última ceia que Jesus realiza com o seu grupo na noite antes de ser preso. São as últimas horas que ele passa com o seu grupo, antes de as forças militares romanas e os guardas do templo, enviados pelos sumos sacerdotes e fariseus, e guiados por Judas Iscariotes, o prenderem no jardim do outro lado da torrente do Cedrom (18,1-3). A comunidade está sentada ao redor da mesa, partilhando o pão e participando da angústia de Jesus (13,21-30). Então, ele lhes dá um novo mandamento (13,34-35). Fala-lhes de sua intimidade amorosa com o Pai, apresentando esse amor incondicional como o caminho, a verdade e a vida. A missão das pessoas que creem em Jesus, aderindo ao seu projeto de vida, é fazer as mesmas obras que ele fez e até obras maiores (14,1-14).

O texto de hoje dá sequência a essa conversa íntima que Jesus estabelece com quem lhe é fiel. Ele quer dar esperança à sua comunidade que está preocupada em como realizar essa missão no seguimento do mestre, quando ele não estiver mais fisicamente presente. Como superar o medo, quando Jesus não estiver mais com seus seguidores e quando vierem as perseguições? E Jesus diz: “Não vos deixarei órfãos” (14,18). “Meu Pai dará para vocês outro advogado ou defensor, a fim de que ele esteja para sempre com vocês” (14,16).

Quem me ama, será amado por meu Pai (14,21)

O primeiro e o último versículo de nosso texto falam em amar a Jesus (14,15.21). Amar a Jesus é aderir incondicionalmente a ele, a seu mandamento de amor, a seu projeto de vida plena, vida em abundância (10,10). É permanecer em sua palavra que conduz à verdade que liberta (8,31-32). Amar a Jesus é acolher e aderir a seu mandamento de amor (14,15), pois é na prática do amor que se conhecerá quem é o seu discípulo (13,35). “E quem tem os meus mandamentos e os observa, é que me ama. E quem me ama, será amado por meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei” (14,21). Entrar no dinamismo do amor de Jesus é fazer parte do amor do Pai, é viver como filho e como filha de Deus, revelando a sua ternura, o seu desejo de vida cidadã. Viver o seu amor é, mesmo na ausência física de Jesus, continuar sendo animado por seu dinamismo. Ele é o nosso defensor ou consolador, agora presente na força do Espírito.

Que permaneça para sempre com vocês o Espírito da Verdade (14,16-17)

Jesus vai embora, mas não nos deixa órfãos. Não nos abandona, deixando-nos sozinhos na missão de amar e de lutar por vida digna. Ele promete que vai pedir ao Pai para que envie outro advogado, consolador ou defensor. É o Espírito Santo, o Espírito da Verdade. É ele quem realizará o projeto de Jesus em cada um e cada uma de nós, a fim de trilharmos no caminho da verdade que conduz à liberdade plena.
O Espírito da Verdade vem exercer a mesma função de Deus no Antigo Israel, isto é, de defender, libertar e resgatar o seu povo do sofrimento e da perseguição (Jó 19,25; Isaías 41,14; 48,17). E esta era a situação da comunidade joanina na época em que este evangelho foi escrito no final do primeiro século (16,1-2). E, por seguir o projeto do “príncipe deste mundo” (14,30), o “mundo” não pode acolher o Espírito da Verdade (18,17).

Quando a comunidade joanina fala em “mundo”, refere-se à sociedade injusta que caluniou, perseguiu e executou Jesus na cruz. Os responsáveis principais por esta estrutura social eram os governantes do império colonialista de Roma, bem como seus governantes dependentes, isto é, os procuradores, a dinastia de Herodes e os sumos sacerdotes que eram nomeados pelos interventores romanos. Os interesses do império não eram o amor, a vida e a
liberdade das pessoas e dos povos. Ao contrário, a pax romana era a dominação implacável sobre as nações conquistadas. Por isso, Jesus diz: “Deixo-vos a paz. A minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá” (14,27). É uma crítica direta à proposta de paz vinda de Roma, bem como a apresentação de outro jeito de reinar. Podemos ainda ler em João 18,36: “Meu reino não é deste mundo”. “Este mundo” é uma referência às relações injustas impostas pela sociedade de então. E Jesus afirma que o projeto de Deus não é como o reino deste mundo, mas é alternativo, é de justiça e de partilha, de solidariedade e de perdão. Este está sob a influência do Espírito da Verdade que gera vida. Aquele é conduzido pelo espírito da mentira e da violência, promovendo morte.


Com essa análise de conjuntura, Jesus identificou o pecado estrutural como a grande força de morte a ser combatida. Ele não pregou um moralismo individualista. A ética que propunha era o engajamento na transformação das estruturas “deste mundo” em estruturas conforme o projeto de Deus para a humanidade, isto  é, o Reino de Deus e a sua justiça (Mateus 6,33). Não é por acaso que Jesus se tornou uma ameaça para os poderes deste mundo.

O Espírito que Jesus nos concede é o mesmo que o animou desde o início de sua missão, quando, no batismo, foi ungido por ele para comunicar-nos a vida e o amor fiel (1,33). Junto com a Verdade, o Espírito também é o princípio da verdadeira religião, vivida no amor (4,23). Diferentemente do diabo, que é homicida e pai da mentira (8,44), o Espírito que o Pai nos envia gera vida e verdade. Não é mais a letra da lei que revela a verdade, mas o amor de Deus vivido por Jesus. Esse mesmo Espírito ensina tudo e recorda o que Jesus disse (14,26). Conduz à verdade plena (16,3), testemunha Jesus (15,26) e transforma tristeza em alegria (16,16-24).

Por fim, quando Jesus nos envia assim como o Pai o enviara (20,21), ele sopra sobre a comunidade reunida e diz: “Recebei o Espírito Santo” (20,22). Então, como pessoas recriadas com o sopro da vida (cf. Gênesis 2,7), sejamos discípulas e discípulos de Jesus, conduzidos pelo mesmo Espírito que o animava em sua missão.

“Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra” (cf. Salmo 104,30).

Ildo Bohn Gass


5/13/2017

A MISSÃO DE JESUS E A NOSSA MISSÃO

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida! (João 14,1-17)


1. João 14,1-2: Nada te perturbe!

O texto começa com uma exortação: “Não se perturbe o coração de vocês!” Em seguida, diz: “Na casa do meu Pai há muitas moradas!” A insistência em conservar palavras de ânimo que ajudam a superar a perturbação e as divergências, é um sinal de que devia haver muita polêmica entre as comunidades. Uma dizia para a outra: “Nós estamos salvos! Vocês estão erradas! Se quiserem ir para o céu, têm que se converter e viver como nós vivemos!” Jesus diz: “Na casa do meu Pai há muitas moradas!” Não é necessário que todos pensem do mesmo jeito. O importante é que todos aceitem Jesus como revelação do Pai e que, por amor a ele, tenham atitudes de serviço e de amor. Amor e serviço são o cimento que liga entre si os tijolos e faz as várias comunidades serem uma Igreja de irmãos e de irmãs.

2. João 14,3-4: Jesus se despede


Jesus diz que vai preparar um lugar e depois retornará para levar-nos com ele para a casa do Pai. Quer que estejamos todos com ele para sempre. O retorno de que Jesus fala é a vinda do Espírito que ele manda e que trabalha em nós, para que possamos viver como ele viveu (Jo 14,16-17.26; 16,13-14). Jesus termina dizendo: “Para onde eu vou, vocês conhecem o caminho!” Quem conhece Jesus conhece o caminho, pois o caminho é a vida que ele viveu e que o levou através da morte para junto do Pai.

3. João 14,5-7: Tomé pergunta pelo caminho


Tomé diz: “Senhor, não sabemos para onde vai. Como podemos conhecer o caminho?” Jesus responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida!” Três palavras importantes. Sem caminho, não se anda. Sem verdade, não se acerta. Sem vida, só há morte. Jesus explica o sentido. Ele é o caminho, porque “ninguém vem ao Pai senão por mim!”, pois ele é a porteira por onde as ovelhas entram e saem (Jo 10,9). Jesus é a verdade, porque, olhando para ele, vemos a imagem do Pai. “Se vocês me conhecem, conhecerão também o Pai!” Jesus é a vida, porque, caminhando como Jesus caminhou, estaremos unidos ao Pai e teremos a vida em nós.

4. João 14,8-11: Filipe pergunta pelo Pai

“Mostra-nos o Pai, e basta!” Era o desejo de muita gente nas comunidades de João: como é que a gente faz para ver o Pai de que Jesus fala tanto? A resposta de Jesus é muito bonita e vale até hoje: “Filipe, tanto tempo estou no meio de vocês, e você ainda não me conhece! Quem me vê, vê o Pai!” Não devemos pensar que Deus está longe de nós, como alguém distante e desconhecido. Quem quiser saber como é e quem é Deus Pai, basta olhar para Jesus. Ele o revelou nas palavras e gestos da sua vida. “O Pai está em mim e eu estou no Pai!” Por sua obediência, Jesus estava totalmente identificado com o Pai. Ele, a cada momento, fazia o que o Pai mostrava que era para fazer (Jo 5,30; 8,28-29.38). Por isso, em Jesus tudo é revelação do Pai. E os sinais ou as obras de Jesus são as obras do Pai. Como diz o povo: “O filho é a cara do pai!” Por isso, em Jesus e por Jesus, Deus está no meio de nós.

5. João 14,12-13: Promessa de Jesus

Jesus faz uma promessa para dizer que a intimidade dele com o Pai não é privilégio só dele, mas é possível para todos os que creem nele. Nós também, por meio de Jesus, podemos chegar a fazer coisas bonitas para os outros do jeito que Jesus fazia para o povo do seu tempo. Ele vai interceder por nós. Tudo que pedirmos a ele, ele vai pedir ao Pai e vai conseguir, contanto que seja para servir.

6. João 14,14-17: Ação do Espírito Santo

Jesus é o nosso defensor. Ele vai embora, mas não nos deixa sem defesa. Promete que vai pedir ao Pai para Ele mandar um outro defensor ou consolador, o Espírito Santo. Jesus chegou a dizer que ele precisava ir embora, pois, do contrário, o Espírito Santo não poderia vir (Jo 16,7). É o Espírito Santo que realizará a proposta de Jesus em nós, desde que peçamos em nome de Jesus e observemos o grande mandamento da prática do amor.

Mesters, Lopes e Orofino


5/06/2017

ENTRAR PELA PORTA

Jesus é o Bom Pastor (Jo 10,1-18)
Jo 10,1-5:                         1ª comparação: entrar pela porteira e não por outro lugar
Jesus inicia o discurso com a comparação da porteira: “Quem não entra pela porteira, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porteira é o pastor das ovelhas.” Naquele tempo, os pastores cuidavam do rebanho durante o dia. Quando chegava a noite, levavam as ovelhas para um grande redil ou curral comunitário, bem protegido contra ladrões e lobos. Todos os pastores de uma mesma região levavam para lá o seu rebanho. Um porteiro tomava conta de tudo durante a noite. No dia seguinte, de manhã cedo, cada pastor chegava, batia palmas na porteira e o porteiro abria. O pastor entrava e chamava as ovelhas pelo nome. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor, levantavam e saiam atrás dele para a pastagem. As ovelhas dos outros pastores ouviam a voz, mas elas não se mexiam, pois era uma voz estranha para elas. De vez em quando, aparecia o perigo de assalto. Ladrões entravam por um atalho ou derrubavam a cerca do redil, feita de pedras amontoadas, para roubar as ovelhas. Eles não entravam pela porteira, pois lá havia o guarda que tomava conta.
Jo 10,6-10: 2ª comparação: Jesus é a porteira
Os ouvintes, os fariseus (Jo 9,40-41), não entenderam o que significava
“entrar pela porteira”. Jesus então explicou: “Eu sou a porteira das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes”. De quem Jesus está falando nesta frase tão dura? Provavelmente, se referia a líderes religiosos que arrastavam o povo atrás de si, mas que não respondiam às esperanças do povo. Não estavam interessados no bem do povo, mas sim no próprio bolso e nos próprios interesses. Enganavam o povo e o deixavam na pior. Entrar pela porteira é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para discernir quem é pastor e quem é assaltante é a defesa da vida das ovelhas. Jesus pede para o povo não seguir as pessoas que se apresentam como pastor, mas não buscam a vida do povo. É aqui que ele disse aquela frase que até hoje cantamos: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Este é o critério!
O discurso sobre o Bom Pastor ensina duas regras como curar este tipo bastante frequente de cegueira: (1) Prestar muita atenção na reação das
ovelhas, pois elas reconhecem a voz do pastor; (2) Prestar muita atenção na atitude de quem se diz pastor, a fim de ver se o seu interesse é a vida das ovelhas e se é capaz de dar a vida por elas.
Certa vez, na festa de posse de um novo bispo, as “ovelhas” colocaram uma faixa na porta da igreja que dizia: “As ovelhas não conhecem o pastor”. As “ovelhas” não foram consultadas. Foi uma advertência séria para quem nomeia os bispos.
Jo 10,16-18: A meta de Jesus: um só rebanho e um só pastor

Jesus abre o horizonte e diz que há outras ovelhas que não são deste redil. Elas ainda não ouviram a voz de Jesus, mas quando a ouvirem, vão perceber que ele é o pastor e vão segui-lo. É a dimensão ecumênica universal.

Mesters, Lopes e Ourofino

4/28/2017

NO CAMINHO DE EMAÚS (Lucas 24,14-31)

1. De que estavam falando pelo caminho?

Duas pessoas andando pela estrada. Desanimadas. Tristes! Estavam indo na direção contrária. Fugindo. Buscando. Imagem de ontem e de hoje. Imagem de todos nós. No ano de 85, muitos discípulos e discípulas andavam pelo caminho, tristes, desanimados, sem saber se estavam no caminho certo. Parece que a cruz ficou maior e mais pesada. O desemprego, a violência, a droga, a falta de atenção séria à saúde e à educação, a falta de dinheiro, as dívidas… o desespero. Sentimo-nos impotentes frente à corrupção que desvia fundos dos cofres públicos, ou frente à má administração que deixa o povo no desamparo. O sistema neoliberal vai gerando cada dia mais exclusões de indivíduos, grupos e países. Parece que vivemos em um caos, em uma situação sem saída. Temos a impressão de estarmos caminhando ladeira abaixo, para o pior.

2. Tinham os olhos vendados

A experiência da morte de Jesus tinha sido tão dolorosa que eles perderam o
sentido de viver em comunidade, abandonaram o grupo de discípulos e discípulas. Sentiram-se impotentes diante do poder que matou Jesus e procuraram salvar pelo menos a própria pele. Sua frustração era tão grande, que nem reconheceram Jesus, quando este se aproximou e passou a caminhar com eles (24,15). Tinham um esquema rígido de interpretação sobre o Messias, e não puderam ver a salvação de Deus entrando em suas vidas. Algumas discípulas tentaram ajudar os companheiros a perceber que Jesus estava vivo (24,22-23). Mas eles se recusaram a acreditar (24,24). Esta notícia era por demais surpreendente. Era o mesmo que dizer que Jesus era o vencedor do caos e da morte. Só podia ser fantasia, sonho, delírio de mulheres (24,11). Impossível acreditar! Quando a dor e a indignação pegam forte, há pessoas que ficam depressivas, desesperadas. Outras se tornam coléricas e amargas. Algumas invocam o fim do mundo com catástrofes que vão tirar os maus da face da terra. Outras buscam evadir-se numa oração sem compromisso social e político. Mas nenhuma dessas posturas ajuda a abrir os olhos e analisar a situação com fé lúcida e responsável, capaz de inventar saídas para esta situação aparentemente sem saída.

3. A Bíblia esquentou o coração, mas não abriu os olhos

Caminhando com eles, sem eles se darem conta, Jesus fazia perguntas. Escutava as respostas com interesse. Dessa maneira, obrigava-os a irem fundo no motivo da sua tristeza e fuga. Procurava fazê-los expressar a frustração que sentiam. Depois, ia iluminando a situação com palavras da Escritura. Procurava situar os discípulos na história do povo, para que pudessem entender o momento que estavam vivendo. Foi uma experiência apaixonante. Mais tarde, eles iriam fazer uma reflexão e perceber que o coração deles ardia, quando Jesus lhes explicava as Escrituras pelo caminho (24,32). Mas a explicação que Jesus dava a partir das Escrituras não conseguiu abrir os olhos dos discípulos.

4. Eles o reconheceram na partilha do pão

Caminhando com Jesus, os discípulos sentiram o coração arder. Cresceu dentro deles uma atitude de acolhida: “Fica conosco! Cai a tarde e o dia já
declina” (24,29). Foi só então que a partilha aconteceu. Partilha de vida, de oração e de pão. Partilha que abriu os olhos e provocou a mais importante descoberta da fé: ele está vivo, no meio de nós! (24,30-31). Esta descoberta lhes deu forças para voltar a Jerusalém, mesmo de noite. Tinham pressa de partilhar com os outros a descoberta que os fez renascer e ter coragem para enfrentar o poder da morte. Sim, Jesus era de fato o vencedor do caos e da morte! Não era fantasia das mulheres. Era uma realidade escondida, misteriosa, que só pode ser descoberta por quem aprende a partilhar, a se entregar, a sair do círculo vicioso dos interesses egoístas, para lutar junto com os outros pela vida de todos. Quando seus olhos se abriram, livres das trevas e travas por poder dominante, puderam descobrir a morte de Jesus como expressão máxima de um amor sem limites. Amor que tem sua origem no Pai cheio de ternura, gerador incansável da vida. Amor que tomou carne em Jesus de Nazaré para visitar e redimir a humanidade. Amor que se mantém fiel até ao extremo de dar a própria vida, para que todos tenham vida (Jo 10,10). Amor que foi confirmado pelo Pai, quando ressuscitou Jesus da morte.

5. Renascer para uma nova esperança

Esta experiência fez os discípulos renascerem para uma nova esperança. Ao
redor de Jesus vivo, eles se uniram de novo e assumiram o projeto de vida para todos. A esperança é como um motor que leva a acreditar nos outros e a inventar práticas de fé. Com a esperança renovada, aquilo que parecia uma total impossibilidade passou a ter um novo significado para eles. Perderam o medo, superaram a experiência de incapacidade e de impotência. Deixaram de lado o negativismo derrotista e voltaram, em plena noite, como se fosse de dia. Voltaram para recomeçar, para reconstruir a comunidade, expressão, sinal e sacramento da presença de Jesus Ressuscitado.

6. Refazer hoje a experiência do caminho de Emaús

Desafiados pela atual conjuntura, somos chamados a viver hoje a experiência
de Emaús e descobrir, na partilha solidária, a presença de Deus no meio de nós. Como comunidade de fé, somos chamados a reconstruir, no diálogo, na abertura e na acolhida, o projeto de Jesus, pelo qual ele entregou sua própria vida. A solidariedade leva à descoberta da força libertadora de Deus na história. Com olhar lúcido e criativo procuraremos expressar esta fé numa solidariedade bem concreta e articulada, seja em nível de grupo, de bairro ou de cidade. Dizer articulada quer dizer que esta ação solidária deve ser comunitária. Só assim será de fato sinal do Reino e poderá intervir em favor da vida, da vida indefesa dos pobres, os preferidos de Jesus.
Mesters e Lopes
Fonte: Trecho retirado do livro O avesso é o lado certo, publicado pelo CEBI.


4/21/2017

TESTEMUNHAR A RESSURREIÇÃO

A paz esteja com vocês (Jo 20,19-31)

A paz! Reconciliar e construir a paz! Esta é a missão que recebem. Hoje, o que mais faz falta é a paz: refazer os pedaços da vida, reconstruir as relações quebradas entre as pessoas. Relações quebradas por causa da injustiça e por tantos outros motivos. Jesus insiste na paz.

João 20,19-20: A experiência da ressurreição
Jesus se faz presente na comunidade. As portas fechadas não podem impedir
que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Até hoje é assim! Quando estamos reunidos, mesmo com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje, a primeira palavra de Jesus é e será sempre: “A paz esteja com vocês!” Ele mostrou os sinais da paixão nas mãos e no lado. O ressuscitado é crucificado! O Jesus que está conosco na comunidade não é um Jesus glorioso que não tem mais nada em comum com a vida da gente. Mas é o mesmo Jesus que viveu na terra, e traz as marcas da sua paixão. As marcas da paixão estão hoje no sofrimento do povo, na fome, nas marcas de tortura, de injustiça. É nas pessoas que reagem, lutam pela vida e não se deixam abater que Jesus ressuscita e se faz presente no meio de nós.

João 20,21: O envio: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês”
É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a
missão, a mesma que ele recebeu do Pai. E ele repete: “A paz esteja com vocês!” Esta dupla repetição acentua a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só a ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

João 20,22: Jesus comunica o dom do Espírito
Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo”. É só mesmo com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que ele nos dá. Para as comunidades do Discípulo Amado, Páscoa (ressurreição) e Pentecostes (efusão do Espírito) são a mesma coisa. Tudo acontece no mesmo momento.
João 20,23: Jesus comunica o poder de perdoar os pecados
O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de
superar as barreiras que nos separam: “Aqueles a quem vocês perdoarem os pecados serão perdoados e aqueles a quem retiverdes serão retidos!” Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade (Jo 20,23; Mt 18,18). No evangelho de Mateus é dado também a Pedro (Mt 16,19). Aqui se percebe a enorme responsabilidade da comunidade. O texto deixa claro que uma comunidade sem perdão nem reconciliação já não é comunidade cristã.

João 20,24-25: A dúvida de Tomé
Tomé, um dos doze, não estava presente. E ele não crê no testemunho dos outros. Tomé é exigente: quer colocar o dedo nas feridas da mão e do pé de Jesus. Quer ver para poder crer! Não é que ele queria ver milagre para poder crer. Não! Tomé queria ver os sinais das mãos e no lado. Ele não crê num Jesus glorioso, desligado do Jesus humano que sofreu na cruz. Sinal de que havia pessoas que não aceitavam a encarnação (2Jo 7; 1Jo 4,2-3; 2,22). A dúvida de Tomé também deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição.
João 20,26-29: Felizes os que não viram e creram
O texto começa dizendo: “Uma semana depois”. Tomé foi capaz de sustentar

sua opinião durante uma semana inteira. Cabeçudo mesmo! Graças a Deus, para nós! Novamente, durante a reunião da comunidade, eles têm uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. E novamente recebem a missão de paz: “A paz esteja com vocês!” O que chama a atenção é a bondade de Jesus. Ele não critica nem xinga a incredulidade de Tomé, mas aceita o desafio e diz: “Tomé, venha cá colocar seu dedo nas feridas!”  Jesus confirma a convicção de Tomé, que era a convicção de fé das comunidades do Discípulo Amado, a saber: o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado! É neste Cristo que Tomé acredita, e nós também! Como ele, digamos: “Meu Senhor e meu Deus!” Esta entrega de Tomé é a atitude ideal da fé. E Jesus completa com a mensagem final: “Você acreditou porque viu! Felizes os que não viram e no entanto creram!” Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio é o mesmo que morreu crucificado!

João 20,30-31: Objetivo do evangelho: levar a crer para ter vida
Assim termina o Evangelho, lembrando que a preocupação maior de João é a Vida. É o que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Mesters, Lopes e Orofino

4/15/2017

O SOL NASCEU! É UM NOVO DIA BENDITO SEJA DEUS, QUANTA ALEGRIA!

A RESSURREIÇÃO DE JESUS (João 20,1-9)
Não há descrição da ressurreição. Ninguém testemunhou o fato mais revolucionário da história. Estamos diante de um mistério. Algo aconteceu, é verdade. Olhando de longe, como Maria Madalena, podemos chegar a acreditar em boatos: Os discípulos vieram de noite e levaram o corpo de Jesus (Mt 28.13). Boatos geram incerteza, medo e tristeza.
Temos que chegar mais perto. Como comunidade cristã, temos de correr a corrida da fé, em busca da fé e da esperança. Como Pedro e o discípulo amado, corremos em velocidades diferentes. Nossas forças não são iguais; uns conhecem atalhos que outros
ignoram. Mas corremos. Buscamos a presença de Jesus Cristo. Este é o nosso objetivo. Buscamos o corpo de Jesus. A corrida da fé em busca da fé nos leva a todos diante do túmulo vazio e escuro. De fora vemos que o corpo de Jesus não está mais ali onde pensávamos encontrá-lo. Inacreditável! Será que estamos vendo certo? Temos que verificar mais de perto ainda. Temos de entrar no túmulo vazio e escuro, temos de passar por ele. Temos de passar com Cristo pela morte (Jo 12.24; Mc 8.34-35). Somente dentro do túmulo se abrirão os nossos olhos: no escuro do túmulo vazio, na ausência do corpo de Cristo, veremos, qual luz no fim do túnel, o brilho da ressurreição. O que fora estava oculto aos nossos sentidos, dentro se evidencia aos olhos da fé. Deus o ressuscitou no terceiro dia!. Crê somente!

Aos nossos sentidos se revela a realidade marcada pela morte em nosso tempo: no rosto dos desempregados, marcados pelo medo e pela incerteza; no rosto de crianças famintas de pão e de carinho; no rosto das moças que vendem sua vida por alguns trocados; no rosto de pessoas corruptas e gananciosas, que não hesitam em usar outros para seu próprio benefício; nas cicatrizes expostas da natureza depredada. Temos que passar pelo vale escuro, pelo túmulo vazio e olhar para além da nossa realidade.
Aos olhos da fé é revelada a possibilidade e a realidade de uma vida
renovada, de um mundo renovado integralmente. Como Pedro e o outro discípulo, nós vamos para casa crendo. Saímos do túmulo repletos de fé e esperança. Saímos renova dos. Fomos do túmulo à procura do corpo de Jesus e saímos de lá como corpo de Cristo. Nós somos o corpo que sumiu. Pela fé nos foi revelado que nossa única esperança está além do túmulo. Passamos por ele. Morremos com Cristo. Saímos dele. Fomos ressuscitados juntamente com Cristo e elevados acima da morte (Cl 3.1-4). Nosso corpo já não se presta para servir à morte, mas à libertação de todas as formas de morte e sofrimento.

Ocorreu um redirecionamento de nossa existência no mundo. Buscamos os valores que estão além e acima da morte. Não mais violência, corrupção, mentira, falta de dignidade, exploração, mas amor, fé, esperança, bondade, alegria. Sem ver a plenitude e a glória da ressurreição, sabemos que nossa vida está guardada em Deus e cremos na palavra dos apóstolos. Nossa vida não é a glória, mas reflexo da mesma.       Para 
o nosso tempo somos luzes no fim do túnel, que indicam para o sol da ressurreição e da vida renovada, que é Jesus Cristo.

Ao sairmos daqui, o que temos a fazer? Através de nossa maneira de viver vamos explicar, tornar presença, tornar corpo, tornar palpável, vivenciável a nova realidade da ressurreição, para que mais gente se sinta animada a dar o passo de fé para além do túmulo.
Nélio Schneider

 Feliz Páscoa!

joaobortoloci@bol.com.br

4/08/2017

DOMINGO DE RAMOS

BENDITO AQUELE QUE VEM EM NOME DO SENHOR! (MT 21,1-12)

Neste primeiro dia da Semana Santa, com certeza não há comunidade no Brasil que não celebre, com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém.  Organizam-se caminhadas e encenações, e muitas pessoas fazem questão de levar alguns ramos abençoados para a casa.
Porém é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade. O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando no v. 5 cita o profeta
Zacarias. Pois Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira, estava fazendo uma releitura de Zacarias 9,9-10. O profeta (conhecido como Segundo Zacarias, pois os capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos) vivia numa situação de grande opressão e pobreza, quando a Palestina e o seu povo eram dominados pelo Império Grego, depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido, manter viva a chama de resistência através da esperança na chegada de um Messias libertador. Ele teria três grandes características: seria rei (9,9-10), bom pastor (11,4-17) e “transpassado”(12,9-14).

Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em Jerusalém, era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do Rei esperado pelos pobres de Javé. Era gesto profético de esperança, algo tão necessário no ministério das Igrejas hoje, infelizmente muito marcadas pela ameaça, frequentemente com mais enfâse sobre o mal do que sobre o bem, de uma suposta dominação de “demônios” e não pela certeza da vitória da graça e da redenção.
Mas o rei anunciado por Zacarias e realizado em Jesus era bem diferente dos
reis dos países de então. Enquanto estes faziam questão de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes, o rei esperado por Zacarias iria entrar em Jerusalém montado em um jumento – o animal do pequeno agricultor. Pois o seu reino seria, não de dominação, opulência e opressão, mas de paz, de justiça e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra.  Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar” (Zc 9,9).
A entrada em Jerusalém de Jesus era verdadeiramente uma entrada triunfal – mas do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, bem como uma viravolta nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressivos dos reinos mundanos e, ao mesmo tempo, era a celebração de Javé, o Deus libertador que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (cf. Ex 3,7). Celebrar a memória deste evento no Domingo de Ramos deve levar-nos a um compromisso maior com a construção de um mundo de paz verdadeira, fruto de justiça, partilha e solidariedade. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que ela é o triunfo da fraqueza de Deus, de sua Cruz, do seu projeto do Reino, pois como disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(1Cor 1,25). Cuidemos de não
transformar a celebração litúrgica em folclore, centrada na figura do celebrante, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que fizeram em Jerusalém, conforme o hino: “Queriam um grande Rei que fosse forte, dominador e, por isso, não creram nele e mataram o Salvador”.  A celebração de Domigo de Ramos é realmente uma vitória, mas uma vitória que vem de fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento de Jesus até a Cruz e a Ressurreição.
Evitemos criar uma caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade, e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de Jesus, isto é, reacender a esperança das pessoas excluídas, marginalizadas, pobres e oprimidas, assumindo cada vez mais ações concretas na busca da construção da “Terra Sem Males”.  É um desafio muito grande para quem tem qualquer ministério de liderança nas Igrejas, ordenado ou não, pois o nosso modelo é o “anti-rei”, Jesus de Nazaré, e não as autoridades pomposas deste mundo.
Tomaz Hughes