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6/24/2017

TENHAM UM AMOR FORTE E UMA FÉ FIRME!

 “NÃO TENHAIS MEDO” Mt 10,26-33 

Quando o nosso coração não está habitado por um amor forte ou uma fé firme, facilmente a nossa vida fica à mercê dos nossos medos. Às vezes é o medo de perder prestígio, segurança, conforto ou bem-estar o que nos trava de tomar as decisões. Não nos atrevemos a arriscar a nossa posição social, o nosso dinheiro ou a nossa pequena felicidade.
Outras vezes paralisa-nos o medo de não sermos acolhidos. Atemoriza-nos a possibilidade de ficarmos sós, sem a amizade ou o amor das pessoas. Ter de enfrentarmos a vida diária sem a companhia próxima de ninguém.
Com frequência vivemos preocupados apenas em ficar bem. Nos dá medo fazer o ridículo, confessar as nossas verdadeiras convicções, dar testemunho da nossa fé. Tememos as críticas, os comentários e a rejeição dos outros. Não
queremos ser classificados. Outras vezes invade-nos o temor do futuro. Não vemos claro o nosso caminho. Não temos segurança em nada. Talvez não confiemos em ninguém. Nos dá medo enfrentar o amanhã.
Sempre foi tentador para os crentes procurar na religião um refúgio seguro que nos liberte dos nossos medos, incertezas e temores. Mas seria um erro ver na fé o refúgio fácil dos pusilânimes, dos covardes e ariscos.
A fé confiada em Deus, quando é bem entendida, não conduz o crente a desviar a sua própria responsabilidade ante os problemas. Não o leva a fugir
dos conflitos para encerrar-se comodamente no isolamento. Pelo contrário, é a fé em Deus a que enche o seu coração de força para viver com mais generosidade e de forma mais arriscada. É a confiança viva no Pai que ajuda a superar covardias e medos para defender com mais audácia e liberdade o reino de Deus e a sua justiça.
A fé não cria homens covardes, mas pessoas resolutas e audazes. Não fecha os crentes em si mesmos, mas abre-os mais à vida problemática e conflitiva de cada dia. Não os envolve na preguiça e na comodidade, mas anima-os para o compromisso.
Quando um crente escuta verdadeiramente no seu coração as palavras de Jesus: “Não tenham medo”, não se sente convidado a fugir de seus compromissos, mas alentado pela força de Deus a enfrentá-los.

Fonte: Instituto Humanitas, 23/06/2017.

4/08/2017

DOMINGO DE RAMOS

BENDITO AQUELE QUE VEM EM NOME DO SENHOR! (MT 21,1-12)

Neste primeiro dia da Semana Santa, com certeza não há comunidade no Brasil que não celebre, com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém.  Organizam-se caminhadas e encenações, e muitas pessoas fazem questão de levar alguns ramos abençoados para a casa.
Porém é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade. O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando no v. 5 cita o profeta
Zacarias. Pois Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira, estava fazendo uma releitura de Zacarias 9,9-10. O profeta (conhecido como Segundo Zacarias, pois os capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos) vivia numa situação de grande opressão e pobreza, quando a Palestina e o seu povo eram dominados pelo Império Grego, depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido, manter viva a chama de resistência através da esperança na chegada de um Messias libertador. Ele teria três grandes características: seria rei (9,9-10), bom pastor (11,4-17) e “transpassado”(12,9-14).

Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em Jerusalém, era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do Rei esperado pelos pobres de Javé. Era gesto profético de esperança, algo tão necessário no ministério das Igrejas hoje, infelizmente muito marcadas pela ameaça, frequentemente com mais enfâse sobre o mal do que sobre o bem, de uma suposta dominação de “demônios” e não pela certeza da vitória da graça e da redenção.
Mas o rei anunciado por Zacarias e realizado em Jesus era bem diferente dos
reis dos países de então. Enquanto estes faziam questão de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes, o rei esperado por Zacarias iria entrar em Jerusalém montado em um jumento – o animal do pequeno agricultor. Pois o seu reino seria, não de dominação, opulência e opressão, mas de paz, de justiça e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra.  Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar” (Zc 9,9).
A entrada em Jerusalém de Jesus era verdadeiramente uma entrada triunfal – mas do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, bem como uma viravolta nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressivos dos reinos mundanos e, ao mesmo tempo, era a celebração de Javé, o Deus libertador que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (cf. Ex 3,7). Celebrar a memória deste evento no Domingo de Ramos deve levar-nos a um compromisso maior com a construção de um mundo de paz verdadeira, fruto de justiça, partilha e solidariedade. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que ela é o triunfo da fraqueza de Deus, de sua Cruz, do seu projeto do Reino, pois como disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(1Cor 1,25). Cuidemos de não
transformar a celebração litúrgica em folclore, centrada na figura do celebrante, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que fizeram em Jerusalém, conforme o hino: “Queriam um grande Rei que fosse forte, dominador e, por isso, não creram nele e mataram o Salvador”.  A celebração de Domigo de Ramos é realmente uma vitória, mas uma vitória que vem de fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento de Jesus até a Cruz e a Ressurreição.
Evitemos criar uma caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade, e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de Jesus, isto é, reacender a esperança das pessoas excluídas, marginalizadas, pobres e oprimidas, assumindo cada vez mais ações concretas na busca da construção da “Terra Sem Males”.  É um desafio muito grande para quem tem qualquer ministério de liderança nas Igrejas, ordenado ou não, pois o nosso modelo é o “anti-rei”, Jesus de Nazaré, e não as autoridades pomposas deste mundo.
Tomaz Hughes


3/31/2017

JESUS É O SENHOR DA VIDA

A MORTE E RESSURREIÇÃO DE LÁZARO  (Jo 11,1-45)
1.                    
João 11,1-16: Uma chave para entender o sétimo sinal da ressurreição de Lázaro

Lázaro estava doente. As irmãs Marta e Maria mandam chamar Jesus: “Aquele a quem amas está doente!” (Jo 11,3.5). Jesus atende ao pedido e explica: “Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho de  Deus!” (Jo 11,4). No Evangelho de João, a glorificação de Jesus acontece através da sua morte (Jo 12,23; 17,1). Uma das causas da sua condenação à morte vai ser a ressurreição de Lázaro (Jo 11,50; 12,10). Assim, o sétimo sinal vai ser para manifestar a glória de Deus (Jo 11,4). Os discípulos não entendem (Jo 11,6-8). Jesus fala da morte de Lázaro, e eles entendem que esteja falando do sono (Jo 11,11-15). Ainda não percebem a identidade de Jesus como vida e luz (Jo 11,9-10). Porém, mesmo sem entenderem, eles estão dispostos a ir morrer com ele (Jo 11,16). A doutrina deles é deficiente, mas a fé é correta.
2.                             João 11,17-19:Jesus chega em Betânia
Lázaro está morto mesmo. Depois de quatro dias, a morte é absolutamente certa, o
corpo entra em decomposição e já cheira mal (Jo 11,39). Muitos judeus estão na casa de Marta e Maria para consolá-las da perda do irmão. Os representantes da Antiga Aliança não trazem vida nova. Só consolam. Jesus é que vai trazer vida nova. Os judeus são os adversários que querem matar Jesus (Jo 10,31). As duas mulheres criaram um espaço novo de contato entre Jesus e seus adversários. Assim, de um lado, a ameaça de morte contra Jesus! De outro lado, Jesus chegando para vencer a morte! É neste contexto de conflito entre vida e morte que vai ser realizado o sétimo sinal.


3.                             João 11,20-24: Encontro de Marta com Jesus – promessa de vida e de
ressurreição
No encontro com Jesus, Marta diz que crê na ressurreição. Ela está dentro da cultura e da religião do povo do seu tempo. Os fariseus e a maioria do povo já acreditavam na ressurreição (At 23,6-10; Mc 12,18). Acreditavam, mas não a revelavam. Era fé na ressurreição no final dos tempos, e não na ressurreição presente na história, aqui e agora. Não renovava a vida. Faltava dar um salto. A vida nova da ressurreição só vai aparecer com Jesus.
4.                             João 11,25-27: A revelação de Jesus provoca a profissão de fé

Jesus desafia Marta a dar este salto. Não basta crer na ressurreição que vai acontecer no final dos tempos, mas tem que crer que a ressurreição já está presente hoje na pessoa de Jesus e naqueles que acreditam em Jesus. Sobre eles a morte não tem mais nenhum poder, porque Jesus é a “ressurreição e a vida”. Então, Marta, mesmo sem ver o sinal concreto da ressurreição de Lázaro, confessa a sua fé: “Eu creio que tu és o Cristo, o filho de Deus que vem ao mundo”.
5.                             João 11,28-31: O encontro de Maria com Jesus
Depois da profissão de fé, Marta vai chamar Maria, sua irmã. É o mesmo processo que já encontramos na chamada dos primeiros discípulos: encontrar, experimentar, partilhar, testemunhar, conduzir até Jesus. Maria vai ao encontro de Jesus, que continua no mesmo lugar onde Marta o tinha encontrado. Tal como a sabedoria, que se manifesta nas ruas e nas encruzilhadas (Pr 1,20-21), assim Jesus é encontrado no caminho fora do povoado. Hoje, tanta gente busca saídas para os problemas da sua vida nas ruas e nas encruzilhadas! João diz que os judeus acompanhavam Maria. Pensavam que ela fosse ao sepulcro do irmão. Eles só entendiam de morte, e não de vida!
6. 
                            João 11,32-37: A resposta de Jesus
Maria repete a mesma frase de Marta: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Ela chora, todos choram. Jesus se comove. Quando os pobres choram, Jesus se emociona e chora. Diante do choro de Jesus, os outros concluem: “Vede como ele o amava!” Esta é a característica das comunidades do Discípulo Amado: o amor mútuo entre Jesus e os membros da comunidade. Alguns ainda não acreditam e levantam dúvidas: “Esse que curou o cego, por que não impediu a morte de Lázaro?”
7.                             João 11,38-40: Retirem a pedra!

Pela terceira vez, Jesus se comove (Jo 11,33.35.38). É assim que João acentua a
humanidade de Jesus contra aqueles que, no fim do século I, espiritualizavam a fé e negavam a humanidade de Jesus. Jesus manda tirar a pedra. Marta reage: “Senhor, já cheira mal! É o quarto dia!” Novamente, Jesus a desafia, apelando para a fé na ressurreição, aqui e agora, como um sinal da glória de Deus: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”
8.                             João 11,41-44: A ressurreição de Lázaro
Retiraram a pedra. Diante do sepulcro aberto e diante da incredulidade das pessoas, Jesus se dirige ao Pai. Na sua prece, primeiro, faz ação de graças: “Pai, dou-te graças, porque me ouviste. Eu sabia que tu sempre me ouves!” O Pai de Jesus é o mesmo Deus que sempre escuta o grito do pobre (Ex 2,24: 3,7). Jesus conhece o Pai e confia nele. Mas agora ele pede um sinal por causa da multidão que o rodeia, para que possa acreditar que ele, Jesus, é o enviado do Pai. Em seguida, grita em alta voz: “Lázaro, vem para fora!” E Lázaro vem para fora. É o triunfo da vida sobre a morte, da fé sobre a incredulidade! Um agricultor do interior de Minas comentou: “A nós cabe retirar a pedra. E aí Deus ressuscita a comunidade. Tem gente que não quer tirar a pedra e, por isso a comunidade deles não tem vida!”

Mesters e Orofino

O ENCONTRO COM O CEGO

É CONVIVENDO QUE OS OLHOS SE ABREM (Jo 9,1-41)

O texto sobre o qual meditamos é comprido. Mas é um texto muito vivo. Difícil de ser cortado pelo meio. Trata da cura de um cego, a quem Jesus devolve a luz aos olhos. É uma história cheia de simbolismos. Temos aqui mais um exemplo concreto de como o Quarto Evangelho tira raio-X para revelar o sentido mais profundo que existe escondido dentro dos fatos. É o sexto sinal, realizado em dia de sábado (Jo 9,14) e ligado à Festa das Tendas (Jo 7,2.37), que era a festa da água e da luz.
As comunidades do Discípulo Amado identificaram-se com o cego de nascença e com a
sua cura. Cegas desde o nascimento por causa da prática legalista da Palavra de Deus, elas conseguiram enxergar a presença de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Para chegar a isso, tiveram que fazer uma travessia cheia de conflitos e de perseguições. Por isso, pela descrição das várias etapas e conflitos da cura do cego de nascença, descreveram também o itinerário espiritual que elas mesmas percorriam, desde a escuridão da cegueira até a luz plena da fé esclarecida em Jesus.
1.                             João 9,1-5: O ponto de partida: cegueira a respeito do mal que existe no mundo
Ao verem o cego, os discípulos perguntaram: “Quem pecou, ele ou os pais, para ele nascer cego?” Naquela época, todo sofrimento era visto como castigo de Deus por algum pecado. Esta mentalidade precisava ser combatida. Associar um defeito físico ao pecado era uma das maneiras de os sacerdotes da Antiga Aliança manter seu poder sobre o povo. Para os saduceus e fariseus, um defeito físico ou uma doença eram sinais da maldição de Deus sobre a pessoa. Jesus não era desta opinião e corrigiu os discípulos. Não existe pecado na pessoa. “Nem ele nem os pais pecaram, mas para que nele sejam manifestadas as obras de Deus!” Obra de Deus é o mesmo que Sinal de Deus. Aquilo que para a época era sinal da ausência de Deus, para Jesus vai ser sinal da sua presença luminosa no meio de nós. Ele disse: “Enquanto é dia, tenho que realizar as obras do Pai que me enviou. Quando vem a noite, já não dá mais para trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” O Dia dos Sinais começou a raiar quando Jesus realizou o primeiro sinal em Caná. Mas o Dia está chegando ao fim e logo será Noite. A noite é a morte de Jesus.
2.                             João 9,6-7: O sinal do enviado de Deus


Jesus cuspiu na terra, fez lama com sua saliva, aplicou sobre os olhos do cego e pediu que fosse lavar-se na piscina de Siloé. O homem foi e ficou curado. Este é o sinal! João comenta, dizendo que Siloé significa enviado. Jesus é o Enviado do Pai que realiza as obras, os sinais do Pai. O sinal deste “envio” é que o cego começou a enxergar. E, tal como Deus criara o ser humano a partir do barro, Jesus vem recriar as pessoas. Nele, somos novas criaturas (2Cor 5,17).
3.                             João 9,8-14: A base da fé é a humanidade de Jesus

A primeira reação veio dos vizinhos e das pessoas chegadas. O cego era muito conhecido. Eles ficaram na dúvida: “Será que é ele mesmo?” O cego respondia: “Sou eu mesmo!” Perguntaram: “Como é que se abriram seus olhos?” O que antes era cego tem que testemunhar: foi o homem Jesus quem me abriu os olhos. O fundamento da fé em Jesus é aceitar que ele é um ser humano igual a nós. Os vizinhos perguntaram: “Onde está ele?” – “Não sei!” Eles não ficaram satisfeitos com as respostas do cego. Para tirar tudo a limpo, levaram o homem até os fariseus, que eram as autoridades religiosas. Aquele dia era um sábado! Em dia de sábado era proibido exercer a medicina.
4.                             João 9,15-17: Jesus é o profeta, ele responde às aspirações do povo

Diante da polêmica criada pelo sinal de Jesus, o caso foi para as autoridades religiosas.
O homem agora testemunha o sinal de Jesus diante dos fariseus, contando tudo de novo. Cegos na sua observância das leis, alguns fariseus comentaram: “Ele não é de Deus, porque não observou o sábado!” Não aceitavam que o homem Jesus fosse um sinal de Deus por fazer tal coisa num dia de sábado. Mas outros se questionavam: “Como é que alguém, sendo pecador, pode realizar tais sinais?” Aí perguntaram ao cego: “E você, o que nos diz a respeito de Jesus?” O homem avançou no seu testemunho. Agora, para ele, Jesus “é um Profeta!” 
5.                             João 9,18-23: Cegos pelo preconceito da lei, os fariseus não aceitam o testemunho da lei
A terceira reação vem dos pais. Os fariseus, agora chamados de judeus, não
acreditavam que o rapaz tivesse sido cego. Achavam que fosse uma fraude montada. Por isso, mandaram chamar os pais e perguntam: “Este é o filho de vocês? Ele nasceu cego? Se nasceu cego, como é que agora enxerga?” Com muita cautela, os pais responderam: “É nosso filho e ele nasceu cego! Como agora enxerga não sabemos, nem sabemos quem o fez enxergar. Vocês interroguem a ele. Ele tem idade!” A cegueira dos fariseus gerava medo no povo, pois quem fizesse a profissão de fé em Jesus como Messias seria expulso da sinagoga. A conversa com os pais revelou a verdade, testemunhada por duas pessoas. Mas as autoridades religiosas se negaram a aceitá-la. A cegueira delas era maior que a evidência. Elas, que tanto insistiam na observância da lei, agora não queriam aceitar a lei que declarava válido o testemunho de duas pessoas (Jo 8,17).
6.                             João 9,24-34: O discípulo não é maior que o mestre. O mestre foi rejeitado…
Chamaram de novo o cego e disseram: “Dá glória a Deus! Sabemos que este homem
é um pecador!” Dar glória a Deus significava: “Peça perdão pela mentira que você nos pregou!” O cego tinha dito: “Ele é um profeta!” Conforme os fariseus, ele deveria ter dito: “Ele é um pecador!” Mas o cego era vivo. Ele disse: “Se ele é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora estou enxergando!” Contra fato não vale argumento! De novo, os fariseus perguntaram: “O que ele fez? Como abriu seus olhos?” O cego respondeu com ironia: “Eu já disse a vocês! Vocês também querem tornar-se discípulos dele?” Responderam: “Você, sim, é discípulo dele. Nós somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés. Mas esse Jesus, nós não sabemos de onde é!” Novamente, com fina ironia, o cego disse: “Espantoso! Vocês não sabem de onde ele é, e ele me abriu os olhos! Se este homem não viesse de Deus, não seria capaz de fazer um sinal desses!” Confrontado com a cegueira dos fariseus, a luz da fé cresceu dentro do cego. Ele rompeu com a velha observância da Lei de Moisés, afirmando que quem lhe abriu os olhos só pode ser alguém que veio de Deus. Esta profissão de fé resultou em sua expulsão da sinagoga. Assim acontecia também no fim do século I. Quem quisesse professar sua fé em Jesus tinha de romper laços familiares e comunitários. Assim acontece até hoje. Quem decide ser fiel a Jesus sofre e corre o perigo de tornar-se um excluído em sua própria família e vizinhança.
7.                             João 9,35-38: A nova comunidade: Jesus o acolhe e ele se entrega

Jesus não abandona quem por causa dele padece ou é perseguido. Quando soube da expulsão, procurou o homem e o ajudou a dar mais um passo, convidando-o a assumir sua fé no Filho do Homem. Ele respondeu: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus respondeu: “Você está olhando para ele. Sou eu que estou falando com você!” O cego exclamou: “Creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus. A atitude do cego diante de Jesus é de total confiança e de inteira aceitação. De Jesus ele aceita tudo. Esta é a fé que sustenta as comunidades do Discípulo Amado. 
8.                             João 9,39-41: Uma reflexão final

O cego, que não enxergava, acaba enxergando melhor que os fariseus. As comunidades, que antes eram cegas, descobrem a luz. Os fariseus, que pensavam enxergar corretamente, são mais cegos que o cego de nascimento. Presos à velha observância, eles mentem quando dizem que veem. O pior cego é aquele que não quer enxergar! Os fariseus. Na verdade, continuam cegos.

Mesters, Lopes e Orofino

3/22/2017

JESUS: ÁGUA VIVA

Samaritana: história de uma sede (Jo 4,5-42)

“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede…” (Jo 4,15)

Vamos, pois, buscar inspiração no encontro instigante de Jesus com a Samaritana, junto a um poço.
Assim como a água, necessária para a vida, é preciso extraí-la do fundo da terra, também a água do Espírito é preciso tirá-la das profundezas de si mesmo.
No início do relato vemos uma mulher caminhando em direção ao poço de Siquém em busca de água; ela vive um “eu fragmentado”, perdida em sua solidão, sedenta de um sentido para sua existência…

Tinha graves problemas, estava confusa, em toda sua vida havia buscando o grande amor. No entanto, seus casamentos fracassados continuavam a perturbá-la. Era uma mulher que havia se perdido no caminho: tantos cântaros quebrados, tantos pedaços para recolher.
Jesus rompe com as fronteiras culturais e religiosas, assenta-se junto ao poço de Jacó e, através de um diálogo provocativo, ajuda a mulher samaritana a encontrar, dentro dela mesma, esse centro de onde mana sem cessar uma água que mata a sede, e não buscá-la em tantos poços secos ou rachados.
Com sua presença instigante, Jesus ajuda a mulher a integrar suas rupturas existenciais, reconstruindo-a como pessoa, a partir de sua própria interioridade.
O encontro com Jesus fez a samaritana viver uma verdadeira “páscoa”, passando de uma vida trivial e dispersa à missão de anunciar aos outros Aquele com quem se havia
encontrado. Como uma água “que jorra para a vida eterna”, uma torrente de gratuidade percorre a cena e transfigura a mulher. Ela foi sendo conduzida até sua própria interioridade através de um paciente processo que a fez passar da dispersão à unificação, da exterioridade à interioridade, da desarmonia à unidade interior, da solidão à comunhão com os outros.

Ela entra em cena como “uma mulher da Samaria” e sai dela como conhecedora do manancial de “água viva”, consciente de ser buscada pelo Pai para fazer dela uma adoradora. Sua identidade transformada a converte em uma evangelizadora que consegue, através de seu testemunho, que muitos se aproximem deJesus e creiam nele. Aquela que falava de “tirar água” como uma tarefa de esforço e trabalho,
abandona agora seu cântaro: Jesus a fez descobrir um dom que lhe é entregue gratuitamente.
Na realidade, ela passou a ter a sensação de estar nascendo pela primeira vez e que Deus a amava. Caíam as etiquetas. Tudo o que tinha sido, a samaritana, filha de sangues misturados e de religião meio pagã, a mulher com uma vida afetiva fracassada, a amante que, depois de compartilhar sua vida com seis homens, duvidava de ter sido amada de verdade alguma vez… tudo aquilo parecia deixar de existir.
Os véus que cobriam o verdadeiro rosto da mulher do cântaro vazio, foram levados pelo vento. Ela se tornou “pessoa”.

Estamos, aqui, diante de uma vida em processo. Ao longo do relato assistimos a tentativa da mulher de permanecer em um nível superficial e mover-se em seu diálogo com Jesus no âmbito da superficialidade. Uma e outra vez ela procura escapar e desviar a conversação para terrenos que não permitem descer em sua profundidade e que não a deixam enfrentar-se com a verdade de sua existência.
Mas ela não contava com a tenacidade de Jesus e com sua determinação de alargar aquela vida atrofiada. Ao longo do encontro, Ele é o verdadeiro protagonista, o condutor da cena e aquele que marca as estratégias da conversação.

Como hábil pescador, Jesus joga suas redes e lança seus anzóis para tirar a mulher,
com quem dialoga, das águas enganosas da trivialidade e do desejo de auto-justificação que a afogam.
Como bom pastor que conhece suas ovelhas, Jesus a faz sair do deserto da superficialidade, vai guiando-a para a profundidade e autenticidade, para a terra do dom da água viva.
Como amigo que busca criar relações pessoais, em nenhum momento emite juízos morais de desaprovação ou condenação: em lugar de acusar, prefere dialogar e propor, emprega uma linguagem dirigida ao coração da mulher.

Como “expert” em humanidade, Jesus mostra-se profundamente atento e interessado pela interioridade de sua interlocutora e lhe faz descobrir o manancial que pode brotar
do mais profundo dela mesma.
Revela-lhe também a interioridade de Deus como Pai que busca adoradores em espírito e em verdade.
Jesus desperta a samaritana a cair na conta que é preciso abrir-se a um “manancial” novo, que lhe vem através d’Ele e que “brota em seu interior” de um modo permanente. Ele é o manancial e com sua presença desperta o manancial interior da samaritana, entupido.

“Dá-me um pouco de sede porque estou morrendo de água!”
Eis o clamor da nossa geração que tendo quase tudo, parece que não consegue descobrir o sentido da própria existência. Morre de sede junto ao poço de água viva.
A sede se refere à busca de sentido presente em todo ser humano, busca daquilo que
traz definitivamente a paz: a “água viva” que coincide com o “dom de Deus”.
Por isso, o relato se situa intencionadamente em chave de oferta: “se conhecesses o dom de Deus…”

Acabou-se o tempo dos templos; a adoração passa pelo coração, é interior e verdadeira, corresponde a uma vida em fidelidade.
A experiência acontece quando escutamos em nosso interior o “eco” que a água viva produz, saciando nossos desejos mais plenos. “Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha para o Pai” (S. Inácio de Antioquia)
Como a samaritana, também diante de nós se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-nos arrastar pela oferta de transformação proposta pelo Jesus que nos busca, porque deseja ampliar nossa existência e comunicar-nos alegria e plenitude.

Adroaldo Palaoro

3/11/2017

"LEVANTAI-VOS. NÃO TENHAIS MEDO"

ESCUTAR JESUS Mateus 17,1-9


O centro desse relato complexo, chamado tradicionalmente a «transfiguração de Jesus», é ocupado por uma voz que vem de uma estranha «nuvem luminosa», símbolo que se utiliza na Bíblia para falar da presença sempre misteriosa de Deus, que se nos manifesta e, ao mesmo tempo, se nos oculta.
A voz diz estas palavras: «Este é o Meu Filho, em quem coloquei o meu agrado. Escutai-O». Os discípulos não devem confundir Jesus com ninguém, nem sequer com Moisés ou Elias, representantes e testemunhas do Antigo Testamento. Só Jesus é o Filho querido de Deus, o que tem o Seu rosto «resplandecente como o sol».
Mas a voz acrescenta algo mais: «Escutai-O». Noutros tempos, Deus tinha revelado a Sua
vontade por meio dos «dez mandamentos» da Lei. Agora a vontade de Deus resume-se e concretiza-se num só mandato:«Escutai Jesus». O escutar estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.
Ao ouvir isto, os discípulos caem pelo chão «aterrados de medo». Estão atemorizados por aquela experiência tão próxima de Deus, mas também assustados pelo que ouviram: poderão viver escutando apenas Jesus, reconhecendo só nele a presença misteriosa de Deus?
Então Jesus «aproxima-se, toca-lhe e diz: “Levantai-vos. Não tenhais medo”». Sabe que necessitam experimentar a Sua proximidade humana: o contato da Sua mão, não apenas o resplendor divino do Seu rosto. Sempre que escutamos Jesus no silêncio do nosso ser, as suas primeiras palavras dizem-nos:«Levanta-te, não tenhais medo».
Muitas pessoas só conhecem Jesus de ouvir falar. O Seu nome resulta-lhes familiar, mas o que sabem Dele não vai mais longe do que algumas recordações e impressões de infância. Inclusive, apesar de se chamarem cristãos, vivem sem escutar no seu interior Jesus. E
sem essa experiência não é possível conhecer a Sua paz inconfundível nem a Sua força alentar e sustentar a vida.
Quando um crente se detém para escutar em silêncio Jesus, no interior da Sua consciência escuta sempre algo como isto:
«Não tenhas medo. Abandona-te com toda a simplicidade no mistério de Deus. A tua pouca fé basta. Não te inquietes. Se me escutas, descobrirás que o amor de Deus consiste em estar sempre a perdoar-te. E, se
acreditas nisto, a tua vida mudará. Conhecerás a paz do coração».
No livro do Apocalipse pode-se ler assim: «Olha, estou à porta e chamo; se alguém ouve a minha voz e me abre a porta, entrarei em sua casa». Jesus chama à porta de cristãos e não cristãos. Podemos abrir-lhe a porta ou rejeitá-lo. Mas não é o mesmo viver com Jesus que sem Ele.

José Pagola

joaobortoloci@bol.com.br

3/04/2017

VENCENDO AS TENTAÇÕES

REALIZAR A JUSTIÇA DO REINO

No Evangelho vemos Jesus que é tentado e como ele resiste o mal. Ele veio para realizar a justiça do Reino de Deus e o diabo vai tentá-lo bem aí: na sua missão.

Primeira - Realizar a justiça do Reino, mediante a abundância-riqueza (vv. 1-4).O demônio quer que as coisas aconteçam através do milagre, da mágica. Mas Jesus se recusa a ser o Messias da abundância: "Não só de pão vive o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor (cf. Dt 8,3). A palavra que sai da boca de Deus propõe liberdade e vida através da solidariedade e partilha. É assim que o Reino será construído. Foi um grande não ao deus mercado-consumismo.

Segunda - Realizar a justiça do Reino mediante o prestígio-fama (vv. 5-7).O
demônio convida Jesus a precipitar-se da parte mais alta do Templo e alude à Escritura, que diz que os anjos o acudiriam. Quer dizer, manipular Deus a seu favor: Jesus é tentado a abusar do poder de Deus para se livrar das morte e dar uma demonstração pública de prestígio. É tentado a ser vedete: a ser estrela, a buscar prestígio e glória, a ser o Messias do sensacionalismo. De novo Jesus responde com a Bíblia na mão. "Também está escrito: Não porás à prova o Senhor teu Deus!” Foi um grande não ao deus fama-prazer-sexo-corpo.

Terceira - Realizar a justiça do Reino, mediante o poder. O demônio é
insistente. Leva Jesus agora para um monte muito alto. Mostra-lhe todos os reinos do mundo e suas riquezas e lhe diz: "Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar". A ousadia do demônio leva à inversão mais radical. Mas Jesus se recusa a ser o Messias do poder. Quem exerce o poder oprime e explora. De novo Jesus responde com a Bíblia na mão. "Vai-te embora, Satanás, pois está escrito: Temerás o Senhor teu Deus, a ele servirás e só por seu nome jurarás" (cf. Dt 6,13). Foi um grande não ao deus dominador-explorador, latifundiário, devastador da natureza...

        Vencidas as tentações: Jesus proclama a justiça do Reino através da partilha, cumprimento da vontade do Pai e do serviço aos irmãos até a doacão da própria vida.
joaobortoloci@bol.com.br

2/25/2017

NÃO À IDOLATRIA DO DINHEIRO



Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça
(Mateus 6,24-34)


O dinheiro, convertido em ídolo absoluto, é para Jesus o maior inimigo para construir esse mundo mais digno, justo e solidário que quer Deus. Faz já vinte séculos que o Profeta da Galileia denunciou de forma rotunda que o culto ao dinheiro será sempre o maior obstáculo que encontrará a humanidade para progredir para uma convivência mais humana.
A lógica de Jesus é esmagadora: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Deus não pode reinar no mundo e ser Pai de todos sem reclamar justiça para os que são excluídos de uma vida digna. Por isso não podem trabalhar por esse mundo mais humano pretendido por Deus os que, dominados pela ânsia de acumular riqueza, promovem uma economia que exclui os mais débeis e os abandona à fome e à miséria.

É surpreendente o que está a suceder com o Papa Francisco. Enquanto os meios de comunicação e as redes sociais que circulam pela internet nos informam, com todo o tipo de detalhes, dos gestos menores da sua personalidade admirável, se oculta de forma vergonhosa o seu grito mais urgente a toda a humanidade: “Não a uma economia da exclusão e da iniquidade. Essa economia mata.
Francisco não necessita de grandes argumentações nem profundas análises para expor o seu pensamento. Sabe resumir a sua indignação em palavras claras e expressivas que poderiam abrir a informação de qualquer telejornal ou ser título da imprensa em qualquer país. Só alguns exemplos.
“Não pode ser que não seja notícia que morre de frio um idoso no meio da rua e que o seja a queda de dois pontos na bolsa. Isso é exclusão. Não se pode tolerar que se deite comida fora quando há pessoas que passam fome. Isso é iniquidade.”
Vivemos na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. Como consequência, “enquanto os ganhos de uns poucos crescem exponencialmente, os da maioria ficam cada vez mais longe do bem-estar dessa minoria feliz”.
“A cultura do bem-estar anestesia-nos, e perdemos a calma se o mercado oferece algo que todavia não compramos, enquanto todas essas vidas truncadas por falta de possibilidades nos parecem um espetáculo que de nenhuma maneira nos altera.”
Quando o acusaram de comunista, o Papa respondeu de forma rotunda: “Esta mensagem não é marxismo, mas sim Evangelho puro”. Uma mensagem que tem de ter eco permanente nas nossas comunidades cristãs. O contrário poderia ser sinal do que diz o Papa: “Estamos a tornar-nos incapazes de nos compadecermos com os clamores dos outros e já não choramos ante o drama dos outros”.
José Antonio Pagola