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8/28/2012

Vocação Missionária [Segunda Parte]

Na diversidade de vocações

São Paulo chama a Igreja de “Corpo Místico de Cristo”. Ele nota como este corpo tem muitos membros e cada um tem suas funções. Um membro difere do outro, mas juntos formam um conjunto harmonioso, com imensas possibilidades de ação. A Igreja também é assim. São tantos membros, cada um com capacidades e funções diferentes. Esta diversidade é fruto da ação do Espírito que distribui, com liberdade, os seus dons. Porque diversas são as faces da missão, diversas devem ser também as faces da missão, diversas devem ser também as vocações ou os carismas.

Todos missionários, mas de modo diferente


Quando dizemos que a Igreja é essencialmente missionária, estamos também afirmando que todos os seus membros são missionários. Ser cristão significa ser chamado a dar a própria contribuição para que todos os povos conheçam Jesus Cristo e vivam os valores do evangelho. 


As comunidades mais amadurecidas na fé, e de certa forma autônomas, são chamadas a contribuir com as mais carentes. O Papa João Paulo II apresenta diversas formas de cooperar com a missão universal. Entre elas está a cooperação espiritual, através da oração, da oferta do próprio sacrifício e do testemunho de vida. Outra forma importante de contribuir com a missão é a animação missionária da própria comunidade, ajudando cada cristão a tomar consciência que ele precisa fazer sua parte pela missão Ad Gentes. Mas o coração da cooperação está Ca promoção das vocações especialmente missionárias (RMi 79). Estas constituem o elemento indispensável da missão, pois como dizia o Apóstolo Paulo, “como crerão se não há quem lhes anuncie”?

Uma vocação específica



Mas como se pode falar de uma vocação especificamente missionária se todos os cristãos são missionários? A resposta aparece de forma muito clara nos documentos da Igreja. Embora todos os cristãos. Em função do próprio batismo, são chamados a contribuir com a missão universal, dedicar-se completamente à vida missionária não constitui uma condição essencial do cristianismo. A grande maioria dos cristãos, pelos compromissos e pela forma de vida que levam, não teriam condições de deixar tudo e partir. Outros nem mesmo sentiriam gosto por isso, ou não sentiriam propriamente esta forma de viver a vida cristã como adequada para si. Em consequência disto, se pode dizer que a vocação missionária pressupõe um chamado específico de Deus. O Concílio Vaticano II afirma que, embora o compromisso de difundir a fé recaia sobre todos os discípulos de Cristo, Ele escolhe aqueles que quer, do meio da multidão, para viver com Ele e enviá-los aos não-cristãos (AG 23).




Adaptação do artigo de: BALSAN, Luiz; GIRARDI, Lírio. Vocação Missionária. Revista MISSÕES, Ano 30, n. 8, abr. 2003. Formação Missionária, p.20. [Segunda Parte]

8/20/2012

ATENÇÃO AOS SINAIS DE VOCAÇÃO


Falar de vocação pode nos remeter a vários significados, e um deles pode ser qual a opção profissional escolher para sua vida. Também poder significar qual o sentido que você deseja dar a sua vida e a sua história. Vocação não é apenas escolha no que “atuar”, não é “sorte”. Você sente algo de diferente em seu interior quando está diante de situações que o mundo vive? Catástrofes, violência, pobreza, carência de Deus, carência de amor.... 

Diante disso, você sente vontade de se aproximar daqueles que se doam e vivem de maneira diferente cuidando de crianças abandonadas, jovens viciados, pessoas doentes, idosos desamparados, situações de violência, de corrupção...você sente vontade de se aproximar daqueles que deixam tudo e decidem doar a vida em lugares em que dinheiro nenhum levaria um profissional a trabalhar... 

Se diante disso você sente vontade de fazer alguma coisa, e ao pensar desta maneira você se sente bem, se entusiasma, sente-se atraído e acaba gostando da ideia, sem mesmo saber o por quê. Aos poucos, você vai descobrindo que isso é um valor, e se realmente sentir que deseja viver desta maneira, pense que isso é sinal de vocação. Não tenha dúvida, esta inclinação para estes sinais revelam uma vocação.

O importante é conhecer a si mesmo, prestar atenção aos sentimentos e emoções e perceber para onde eles se inclinam. O chamado de deus (vocação), que é muito pessoal, se encaixa em nossa natureza, em nosso jeito de ser. Quando deus chama alguém para uma determinada vocação, esta pessoa tem as condições para realizá-la.

AS APTIDÕES DE CADA UM

“Numa floresta, os animais resolveram fazer algo diferente com seus filhotes em crescimento. Montaram uma escola moderna. 

Prepararam um dos melhores locais, escolheram ótimos professores e material didático de primeira. Elaboraram um programa para ninguém botar defeito. Nas fichas de matrícula, fizeram questão de colocar bem em evidencia a principal aptidão do filhote, mesmo sabendo que para conseguir o diploma final do curso, os alunos precisavam se sair bem em todas as matérias.

As aulas começaram. Passaram apenas alguns dias e os problemas começaram a aparecer. O pato, que tirava sempre 10 com louvor em natação, chegava sempre em último na corrida e era um desastre em música. Para não perder o ano, precisou de um professor particular e para dar conta do recado, começou a descuidar-se da natação. De tanto praticar corrida, a membrana de seus pés avariou-se e o pobre pato se machucou. 

A lebre tirava sempre nota máxima na corrida, mas no voo, no canto e na natação era uma catástrofe. De tanto nadar ficou doente o que a levou a fracassar no que era seu forte: a corrida. E assim foi acontecendo com os demais bichinhos: cisnes, esquilos, rouxinóis.... Ante tanto fracasso, a escola foi fechada e cada um voltou a exercitar-se e a valorizar suas aptidões. 

Moral da história: Deus é pai e nunca nos pedirá o impossível. A graça do chamado não atropela a natureza, está sempre dentro de nossas possibilidades. Preste atenção aos sinais e vá buscando descobrir qual é o seu lugar nesta orquestra que é o mundo. Busque até encontrar o instrumento que você está sendo chamado a tocar, para que a harmonia seja perfeita. Não seja mais um espectador. Reflita.

Você tem consciência do quanto é importante conhecer-se para começar a organizar o seu futuro? Você já tentou esta busca? 

Já percebeu quais são os instrumentos a serem usados para chegar à descoberta do seu lugar no projeto de Deus? 

Se você sente algo de diferente em seu interior, pense sobre as suas aptidões, e de que forma poderá responder ao chamado de Deus para sua vida.

Adaptação do artigo de: FRANZOI, Rosa Clara. Atenção aos Sinais. Revista MISSÕES, Ano 30, n. 3, abr. 2004. Pró-Vocações, p. 7.

6/21/2012

O VÔO DE MINHA VIDA

Por: Pe. Giovanni Mezzadri

Pe. Giovanni Mezzadri, conta como se tornou missionário xaveriano e qual foi o importante papel de um santo frei capuchino na sua caminhada. Atualmente é Vice Reitor do Seminário Xaveriano em Londrina –Pr.

Nasci em Parma, na Itália, próximo à Casa Mãe das Missionárias de Maria – Xaverianas. As mulheres da paróquia, como minha mãe, participavam freqüentemente das palestras das missionárias, sobretudo da fundadora Madre Celestina Bottego. As missionárias incentivavam as mulheres a rezar muito pelos povos do mundo inteiro, e a consagrar seus filhos à Nossa Senhora para as missões. Destas consagrações saíram um Bispo, dois padres xaverianos, dois padres diocesanos e várias Irmãs.

Minha mãe morreu quando eu tinha nove anos de idade. Meu pai casou-se novamente e a segunda mãe nos acudiu com muito amor.

Na minha família recebíamos sempre a imprensa missionária dos xaverianos. Líamos com gosto as “aventuras” dos padres que trabalhavam na China. Um dia, num desses jornais, apareceu um artigo que falava dos poucos evangelizadores que havia na América Latina e que tinha um seminário que acolhia jovens para se tornarem missionários. Aquele artigo foi a rede que Jesus lançou para me apanhar. Infelizmente, porém, não fui generoso. Procurei escapar da rede, sufocar este chamado.

Fui trabalhar de torneiro mecânico numa firma de Parma. À noite estudava desenho técnico.

Depois fui para Ravenna, numa grande firma com três mil operários e ganhava bem melhor. O clima das fábricas naquele tempo era impregnado de anticlericalismo. Mas os missionários eram poupados das críticas, pois até os mais fanáticos comunistas tinham respeito para com a dedicação e a abnegação deles.

Meu objetivo era formar uma família. Namorei, mas depois de três meses desisti. Precisava antes resolver algo que não me deixava tranqüilo. Aquela moça não merecia ser enganada, pois eu ainda não sabia bem que rumo tomar na minha vida.

Tinha paixão por aviões e montava modelos de plástico: sonhava voar. Um dia, em Ravenna, surgiu um concurso para participar de um curso gratuito de pilotagem. Ganhei a vaga e consegui tornar-me piloto. Embalado pelo sucesso, e devendo cumprir com o serviço militar obrigatório, fui para a aeronáutica onde fiz o pedido de entrar na Academia para dirigir os aviões a jato.

Neste período, um primo meu convidou-me para ir a São Giovanni Rotondo onde tinha um tal de padre Pio que tinha o dom de ler o coração das pessoas. Ele estava precisando muito de uma orientação.

Quando chegamos, precisamos ficar três dias num hotel até que chegasse a nossa vez de sermos atendidos. Participávamos da Missa presidida por padre Pio todas as manhãs às 5h30, com a igreja sempre lotada de pessoas do mundo todo. A Missa durava quase duas horas. Padre Pio não falava nada, estava muito absorvido, concentrado no mistério que de uma certa maneira estava revivendo.

Quando terminava a Missa todos se aproximavam dele para beijar-lhe as mãos cobertas com uma luva para proteger as chagas, os estigmas, que ele já tinha recebido a muito tempo. Com as crianças era muito carinhoso, mas com os devotos exagerados era meio impaciente e os afastava de maneira áspera.

Depois de um cafezinho entrava no confessionário. Confessava muito mais os homens porque ele dizia que eram mais pecadores. Quando chegou a minha vez, contei-lhe que sentia uma certa atração pela vida missionária. Ele me respondeu de maneira severa: “que atração, que nada ... são três anos que você está resistindo ao chamado de Deus!”. Saí de lá chorando.

Quando voltei ao quartel da aeronáutica, fiz o pedido de entrar no seminário xaveriano.

Desse momento em diante Padre Pio sempre me acompanhou com a sua proteção ao longo de todo o vôo de minha vida.

6/14/2012

SIMPLESMENTE, DISPONÍVEIS

Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)


Nosso testemunho de jovens missionários se faz através de gestos simples.

Um dia Jesus passou a beira da praia e chamou os discípulos: “venham comigo e eu farei de vocês pescadores de homens”. Depois deste convite muitos homens e mulheres entregaram sua vida à missão de anunciar o Reino de Deus. Hoje Jesus continua passando nos nossos caminhos e chama a todos a se colocarem disponíveis.

Ser disponível à missão é ser apaixonado pelo Reino de Deus, é ter sede de ver, amar, saborear a ação de Deus que se encarna e se faz presente em meio à humanidade, contemplar sua ação nos povos e nas diferentes culturas.

Lutar por este Reino exige desapego e renúncias, pois é “uma pérola de grande valor” (Mt 13,44). Para adiquiri-la é preciso vender todos os bens, “deixar casa, família, amigos, irmãos” e doar a própria vida em favor dos outros.

O jovem que faz a sua opção fundamental por Jesus Cristo, descobrirá Nele o mais nobre ideal. Ao fazer esta profunda experiência não poderá guardá-la só para si: carregará consigo o desejo de que mais e mais pessoas O conheçam. Jesus nos chama para estar com Ele e nos envia para partilhar com os outros as suas maravilhas. Somos enviados por Cristo e em nome de Cristo: não possuimos nenhum projeto próprio, o nosso projeto é a plena adesão a Jesus que veio para “que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Seguir Jesus, o enviado do Pai, exige de nós uma profunda conversão que se expressa por um coração aberto a todos sem distinção de raça, língua, credo, ideologia ou classe social, fazendo-nos um instrumento de vida plena para todos.

O grande desafio é fazer a opção por aqueles que não estão “no centro” e por aquilo que não está “na moda”. A disponibilidade missionária convida-nos a fazer a opção pelo fraco e sofrido, pelo marginalizado, esquecido e explorado, chama-nos a andar na contramão e acreditar que outro mundo é possível.

Nosso testemunho de jovens missionários se faz através de gestos simples: só através da simplicidade podemos atingir a pessoa na sua humanidade, aproximar-nos de verdade aos outros, torna-nos capazes de ser presença entre os povos de uma maneira fraterna e calorosa. Nesta nossa sociedade onde prevalece o consumismo, a simplicidade torna-se denúncia e ação profética. Assim como o “Verbo se fez carne e armou a tenda entre nós” (Jo 1,14), também nós devemos nos tornar solidários com a realidade concreta dos grupos humanos onde nos inserimos.

A atenção, a gratuidade, a escuta, a caridade em favor dos que mais precisam, o empenho pela paz, pela justiça, a solidariedade com os simples, o respeito e a luta pelos direitos humanos são atitudes que nos fazem próximos dos pobres. Enquanto o mundo nos apresenta o prazer e o ter como centro e sentido da vida, nós jovens acreditamos que um mundo onde a busca pela justiça, a verdade, a honestidade, o respeito ao diferente, a ajuda mútua vencerá pouco a pouco as violências, injustiças, indiferenças, explorações e tudo que aflige a pessoa humana.

Se você carrega no peito “a estranha mania de ter fé na vida”, pare, reze, escute, procure perceber a voz de Deus que se comunica através dos acontecimentos e nos interpela a partir da nossa própria história. Ele nos convida a sair de nós mesmos e a partilhar nossos dons: “Jesus convida, conta contigo ... Mas é preciso ter coragem de morrer. Coração livre, comprometido, partilha tudo, sem ter medo de perder.” Ser disponível para a missão é de fato uma entrega ao serviço generoso e desinteressado, uma total doação à vontade do Pai para que sua salvação seja proclamada até os confins da terra.

6/12/2012

1º ESTÁGIO VOCACIONAL DE CURITIBA 2012


Aconteceu entre os dias 28 de abril a 01 maio, o 1º Estágio Vocacional de Curitiba, no seminário Xaveriano de Filosofia.  Jovens vocacionados se reuniram aos estudantes da comunidade e juntos viveram um momento de convivência vocacional, escuta da palavra de Deus, partilha de suas vocações diante da vocação missionária.

“O amor de Deus permanece para sempre; é fiel a si mesmo, à «promessa que jurou manter por mil gerações” (Sal 105, 8).

O seminário Xaveriano de Curitiba é a etapa formativa de Filosofia, e recebe jovens que já concluíram o Ensino Médio e desejam seguir o carisma missionário.


Vista do Seminário


Participantes do Estágio Vocacional 2012


Momentos do Estágio Vocacional







Momento recreativo


1º ESTÁGIO VOCACIONAL DE LONDRINA 2012


Dos dias 20 à 22 de abril, aconteceu no Seminário Xaveriano de Londrina, o primeiro Estágio Vocacional de 2012. Vocacionados de diversas regiões se encontraram para um momento de reflexão e escuta da vontade de Deus para suas vidas.

 “As vocações, dom do amor de Deus” (Papa Bento XVI).

 O Seminário Xaveriano das Missões de Londrina é a primeira etapa da formação Xaveriana, recebe vocacionados que cursam o Ensino Médio, e desde este momento se preparam para assumirem sua vocação de chamados por Deus para serem sinal do seu amor no mundo.

Vista Interna do Seminário


Momentos do Estágio Vocacional 





Trabalho comunitário


Momento recreativo




6/07/2012

SEMPRE MAIS

No final de sua jovem vida, Francisco Xavier queria ir sempre mais além, encarando novos desafios. No Japão, ele tinha percebido que o povo era muito dependente da China, de onde tinha trazido a religião, a escritura e quase toda cultura espiritual. Mas as fronteiras da China estavam fechadas aos estrangeiros ...
Uma carta dos prisioneiros portugueses nos terríveis cárceres de Cantão animou-o a preparar uma viagem à China como embaixador do rei de Portugal. Mas, em Malaca, o capitão Álvaro de Ataíde, almirante dos mares do Oriente, se opôs a essa expedição. Mudado o plano inicial, o missionário insiste e não volta atrás: “Vou às ilhas de Cantão, desamparado de todo favor humano, na esperança de que algum gentio me levará à terra firme da China”. As dificuldades parecem impossíveis a serem vencidas. Mesmo assim, Xavier não desiste da idéia.
Antes de embarcar para a sua última viagem, sua imaginação está lá na frente, projetando o nosso missionário ainda mais além. Ouve falar de uma estrada que da China vai até Jerusalém. Francisco retoma um sonho de sua juventude, quando junto a Inácio e aos primeiros companheiros, faz o propósito de ir a Jerusalém com a intenção de levar aos muçulmanos um singelo testemunho de pobreza e de entrega a Deus. Neste projeto, ele tem um desejo louco de reencontrar Inácio, seu amigo e seu pai espiritual, que está em Roma e que não vê a mais de dez anos. Na última carta que lhe escreve de Goa, em abril de 1552, fala-lhe dessa possibilidade e já planeja concretizar seu sonho: “se isso for como me contam, eu o escreverei a Vossa santa Caridade, quantas léguas e quanto tempo precisará para chegar da China até Jerusalém”.
No final de agosto de 1552, Xavier chega à Ilha de Sancião, a 10 km da costa chinesa, ponto de encontro entre comerciantes portugueses e chineses. Lá encontra vários amigos, mas nenhum deles arrisca-se a levá-lo até a cidade de Cantão. Só um contrabandista chinês aceita de levar Xavier, clandestinamente, até o continente. Francisco, não tendo outras escolhas, aposta nesta ajuda, mas o homem desaparece depois de receber o dinheiro.
Em 21 de novembro, Xavier cai doente e fica desacordado com febre alta. Delira e repete muitas vezes: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. Com a agoniada meta diante dos olhos, ele morre na manhã do dia 3 de dezembro de 1552, com 46 anos, longe de todos, numa pobre cabana. Xavier é abandonado por quase todos sem poder concretizar seu mais ousado e ambicioso projeto. Ele é como Moisés que avista a Terra Prometida sem poder entrar nela. Sua visão de chegar às portas da realização do seu sonho é a herança de impulso, de audácia e de vitalidade missionária que deixou à posteridade.
Nessa última viagem transparece em Francisco Xavier aquele “homem espiritual” capaz de servir a Deus e ao próximo uma dinâmica chamada do “sempre mais”. Este é um princípio característico de Santo Inácio de Loyola, que cada membro da Companhia de Jesus, discernindo os sinais dos tempos, descobre no contexto dos desafios e das oportunidades que o mundo oferece, uma exigência apostólica de criatividade.
A Congregação Geral da Companhia de Jesus reafirma hoje com uma certa ousadia: “Os jesuítas nunca ficam satisfeitos com um estado de acomodação, do já conhecido, do já experimentado, do que já existe: somos continuamente levados a descobrir, redefinir e alcançar o ‘sempre mais’. Para nós, fronteiras ou limites não são obstáculos ou pontos de chegada, e sim novos desafios a serem encarados, novas ocasiões a serem aproveitadas. Verdadeiramente é típica da nossa maneira de proceder uma santa audácia, uma certa agressividade apostólica”.
Desta “santa audácia”, ou garra apostólica, Francisco Xavier é uma magnífica realização: nada parece frear seu ímpeto missionário. Quando ele descobre que Deus o chama nas Ilhas Molucas, ou no Japão, ou na China, a ousadia e a criatividade o levam a superar todo obstáculo, a encontrar todos os meios necessários para vencer as dificuldades e alcançar o objetivo que a caridade de Deus lhe aponta, com a certeza que “tudo é possível a quem tem fé” (Mc 11,23), porque “nada é impossível a Deus” (Lc 1,37).
Suas atitudes e suas escolhas expressam um único princípio fundamental: só Deus! Deus é mais! Deus é vida ... e convida as pessoas a apostarem sua vida com Ele.

Nos passos de Xavier

Com essas páginas terminamos a seção central de Família Xaveriana dedicada à espiritualidade de São Francisco Xavier, nesse ano em que se celebra o V centenário de seu nascimento. Quatro foram os aspectos abordados: a capacidade do missionário de sonhar com um mundo novo; sua disponibilidade radical em tornar-se dom para os outros; sua propensão à proximidade e à amizade com as pessoas; e agora, por último, a dimensão universal de seu chamado expresso na ousadia de ir sempre mais além, até chegar a todos. Tudo está centrado numa entrega total e confiante em Deus. Para Xavier, o missionário é nada, Deus é tudo. É Ele que faz acontecer a missão. A vida espiritual do missionário consiste na disposição de conformar sua vida na vida e na ação de Deus.

5/31/2012

O SONHO

Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)


Muitos jovens desejam tornar-se missionários e missionárias. Mas a missão não é apenas questão de boa vontade ou de querer salvar o mundo. Olhando para a vida de Francisco Xavier, podemos apontar para algumas qualidades: a primeira, é a capacidade de sonhar em grande, aprender a sonhar com Deus e realizar com ousadia e determinação os sonhos dele em nossa vida ...
Quando se alcança uma certa idade, não páram de passar pela cabeça aquelas perguntinhas que confundem e até criam o frio na barriga: “O que vou fazer, ou gostaria de fazer na minha vida? O que vou ser, ou gostaria de ser?”. Assim começa o sonho que caracteriza a juventude, e que cedo ou tarde pode fazer e construir a sua historia.
Será que você já se fez estas duas perguntas um dia? Mesmo que não tenha ainda uma resposta, isso não importa. O importante é fazer-se estas perguntas. Deixá-las habitar em sua vida e em seu pensamento, é um bom sinal! Um jovem que não sonha não merece ser chamado de jovem.
Então onde está indo? Para onde a vida está te levando? Tudo na vida da gente começa com sonhos. A “história feliz e vitoriosa” de muitas pessoas começou com um sonho, isto é, com algo que está ao mesmo tempo longe e perto do alcance, ao mesmo tempo possível e impossível de se realizar.
RECONSTRUIR CASTELOS?

É isso que a vida de São Francisco Xavier nos ensina. No começo, havia um sonho tão humano, bonito e natural de reabilitar a sua família arruinada pela guerra. Aos 11 anos de idade, ele tinha presenciado, com lágrimas nos olhos, a demolição do seu castelo e a ocupação das terras de seus pais. Não podia pensar em mais nada do que a reconstrução do castelo. Segundo seus cálculos, isso podia acontecer somente se ele se tornasse um homem sábio, um homem culto, um homem de igreja ... Desta maneira ia ganhar muito prestígio e muito dinheiro.
Por isso, pensou em prosseguir seus estudos na universidade de Paris, que era a mais famosa naquela época. Mas Deus escreve certo nas linhas tortas. Deus nos reserva surpresas no nosso caminhar. Soubemos no que deu este sonho de Francisco! Tudo, finalmente, tomou outro rumo ao ouvir repetidas vezes da boca de Inácio:“de que adianta ganhar o mundo inteiro se você perder a sua própria vida?”.

GANHAR NA MEGA-SENA?

Então jovem, não deixe de sonhar! Não deixe de sonhar imaginando que um dia acordará com tudo definido e programado em sua vida. Não deixe de sonhar pensando que um dia “vai pintar” uma luz em algum momento e tudo será resolvido. Não deixe de sonhar procurando soluções mágicas como, por exemplo, ganhar na loteria ou na mega-sena. Não deixe de sonhar deixando que seus pais ou seus irmãos decidam e sonhem por você. Não deixe de sonhar para seguir os caminhos da moda, do mundo, da onda e da “galera”.
É verdade que alguns deixam de sonhar porque o mundo, a sociedade, as circunstâncias da vida os empurram mais cedo na luta para a sobrevivência. Mas não pense que tudo na vida é só uma questão de sorte: isso é o mal do nosso mundo. As conquistas na vida são sempre fruto de um grande sonho no qual se acreditou e para o qual se lutou com ousadia e determinação.

FAZER ESCOLHAS

Os que realizaram seus sonhos, conseguiram porque os levaram a sério, com coragem, com responsabilidade, com perseverança e com esperança. Isso significa que se deve saber “fazer escolhas”, a partir de uma escala de valores. Fazer escolhas significa também renunciar às coisas que não combinam com os nossos sonhos. Isso quer dizer também não se deixar levar pela onda do momento. Não se realiza um sonho sem sacrifício, sem renúncia. Na vida não se pode tudo, como também não se pode ter tudo.

SONHAR EM MUTIRÃO

Enfim, nunca esqueça daquela canção: “um sonho que se sonha só, pode ser pura ilusão, sonho que se sonha juntos é sinal de solução. Então vamos sonhar companheiros, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão”. O sonho de Francisco Xavier tornou-se realidade porque sonhou em grande, juntos com seus companheiros. Na noite em que ele falece, tem a companhia de um crucifixo, de um fiel amigo chinês e de um pequeno estojo em seu pescoço com uma relíquia de São Tomé, a fórmula de sua profissão religiosa e as assinaturas de seus amigos recortadas das cartas deles. Tinha deixado a sua “verdadeira família” em Roma para nunca mais revê-la. Mas ela não estava longe: Francisco a guardava sempre no lado esquerdo do peito.

5/24/2012

A AMIZADE

A celebração dos 500 anos do nascimento de São Francisco Xavier é uma ocasião para redescobrir uma figura missionária extraordinária que, através de sua profunda humanidade e disposição para a amizade, encontrou o caminho da santidade no encanto pelo rosto do outro e do pobre ... um encanto que o conduz ao pleno encontro com Deus.

Os biógrafos de Francisco Xavier dizem que seu aspecto físico e exterior revelava uma pessoa fisicamente forte e equilibrada: “O Padre Francisco era de estatura antes grande que pequena, tinha o rosto bem proporcionado, branco e corado, alegre e de muito boa graça; os olhos negros, a fronte larga, o cabelo e barba pretos”, escreve o Pe. Manoel Teixeira.

Suas qualidades, moldadas desde a infância pela educação familiar e por uma vida marcada pelos conflitos, o habilitavam a resistir às fadigas do ministério e a enfrentar os riscos e os perigos das viagens daquele tempo. Era também uma pessoa dotada de grande inteligência e de sensibilidade aguda, curiosa e interessada a tudo, interiormente livre e afetivamente rica, madura, coerente, psicologicamente bem identificada. Xavier é capaz de defender suas idéias e, ao mesmo tempo, é aberto às novidades, sobretudo, às relações interpessoais, graças a um temperamento feliz e expansivo, comunicativo e alegre, com uma extraordinária disposição à amizade.

Essa sua amizade é dirigida em primeiro lugar a seus companheiros, particularmente a Inácio de Loyola, ao qual era afetuosamente muito ligado. Partindo de Roma, Francisco sabe que não o encontrará mais e então ele sonha com o dia em que no céu o encontrará “face a face e com muitos abraços”. Mas antes de embarcar para a sua última viagem rumo à China, ouve falar de uma estrada que da China vai até Jerusalém. Francisco retoma um sonho de sua juventude, quando junto a Inácio e aos primeiros companheiros, faz o propósito de ir a Jerusalém com a intenção de levar aos muçulmanos um singelo testemunho de pobreza e de entrega a Deus. Neste projeto, ele tem um desejo louco de reencontrar Inácio, seu amigo e seu pai espiritual, que está em Roma e que não vê a mais de dez anos. Na última carta que lhe escreve de Goa, em abril de 1552, fala-lhe dessa possibilidade e já planeja concretizar seu sonho: “se isso for como me contam, eu o escreverei a Vossa Santa Caridade, quantas léguas e quanto tempo precisará para chegar da China até Jerusalém”.

Poucos meses depois, Francisco morrerá na Ilha de Sancião na companhia de um Crucifixo, de um fiel amigo chinês e de um pequeno estojo com as assinaturas de Inácio e de todos seus companheiros, recortadas das cartas deles. Ele as levava sempre consigo, guardando-as do lado esquerdo do peito.

Francisco sabia que tinha um grande coração que o amarrava facilmente às pessoas. Ele precisava dominar, de vez em quando, seus sentimentos. Ele conta que, depois de uma quaresma em Ternate nas Ilhas Molucas, teve que embarcar escondido a meia noite para evitar de deparar com os “choros e prantos dos meus devotos, amigos e amigas”. Em vão. Uma multidão de indígenas o estava esperando na praia para despedir-se dele.

Francisco tinha o dom de criar e manter profundas relações humanas, de saber falar com as pessoas de todas as classes sociais, desde os príncipes até o último pobre pescador, desde os mais devotos cristãos até os marinheiros e os comerciantes que encontrava, capaz de explicar o catecismo aos mais humildes e de encarar o Rei de Portugal. Numa de suas cartas, ele afirma: “Eu vou no meio do povo sozinho, sem intérprete. Eles não me entendem e nem eu entendo eles. Batizo os recém-nascidos e outras pessoas que encontro para batizar: para isso não preciso de intérpretes. Os pobres me fazem entender suas necessidades sem intérpretes e eu, olhando-os, os entendo sem intérpretes. Para as coisas mais importantes não preciso de intérpretes”.

Em Goa, um dos seus jovens confrades relata: “Ele era sempre carinhoso, cheio de espírito em seus discursos, era o primeiro a colocar a sela e a dar de comer aos nossos cavalos. Falava de Deus e ganhava os corações de todos os que o ouviam. Em qualquer lugar, ele deixava a impressão de sua santidade e, sobretudo, do seu amor”.

Ao Rei de Portugal escreve nove cartas sobre problemas muito delicados relativos a sua vida espiritual, como também sobre sua maneira de governar e de vigiar seus subordinados que oprimiam o povo e não se preocupavam com as exigências da vida cristã. Francisco era uma daquelas pessoas que se apaixonavam para o bem, a justiça e para a defesa dos direitos dos pobres. Ele não tem medo de chamar as coisas com o nome delas, sem alguma reserva.

A simplicidade e a linearidade do caráter de Francisco Xavier transparecia também pela sua maneira de vestir, que era muito simples, em nada suntuosa, mesmo sabendo de ser o Núncio Apostólico do Papa para o Oriente. Assim o descreve o Pe. Teixeira: “trazia uma batina pobre e limpa, sem faixa nem manto, pois este era o traje dos sacerdotes pobres da Índia ... Era muito afável com os de fora, alegre e familiar com os de casa”. Como as pessoas verdadeiramente grandes, Xavier não mostrava sua grandeza na aparência, mas na caridade.

Nesta simplicidade e pobreza, Francisco Xavier seguia a disposição das primeiras Constituições da Companhia de Jesus que diziam quanto “mais suave, mais pura, mais edificante para os fiéis é a vida quando é absolutamente distante de toda sombra de interesse e mais conforme à pobreza”.

Para concluir este retrato da personalidade de Xavier, é lícito perguntarmos se este homem não tivesse tido algum defeito. Com certeza, no seu ardor missionário deve ter incomodado muitas pessoas e, sendo um homem de grande atividade, terá precisado de alguém, depois dele, que colocasse em ordem as coisas e tudo o que não conseguia acabar. Podemos pensar que, em alguma ocasião, pode ter exagerado em contrastar as pretensões e as injustiças causadas pelos portugueses nas colônias. Particularmente, deve ter feito sofrer as pessoas medíocres. No final, porém, deve ter sido perdoado de tudo pela sua bondade alegre e sua generosidade.

OS MELHORES AMIGOS DAS PESSOAS

Essa disposição à proximidade e à amizade com as pessoas, pode ser encontrada também na experiência missionária de outro grande Francisco, o de Assis. Nesse diálogo com frei Tancredi, ele esclarece qual é o papel da amizade no anúncio da Boa a Nova aos outros:

“O Senhor nos enviou a evangelizar os povos. Mas você nunca refletiu o que significa isto? Evangelizar uma pessoa significa dizer-lhe: ‘Você também é amado por Deus em Cristo’. Não basta dizê-lo: precisamos estar convencidos. Não basta também estarmos convencidos: devemos agir com aquela pessoa de modo que ela perceba e descubra em si mesma algo que foi salvo, algo de mais grande e mais nobre que ela não tivesse pensado antes. Devemos, enfim, provocar nela o despertar de uma nova consciência de si mesma. Isso significa anunciar-lhe a Boa Nova. Contudo, não poderá obter este bom resultado se não oferecendo àquela pessoa a tua amizade: uma amizade real, desinteressada, sem complacência, toda alimentada de confiança e de estima recíproca.

Nós devemos ir às pessoas. Isso não é fácil. O mundo humano é um imenso campo de batalha onde as pessoas combatem para se enriquecer e dominar. Demasiadas dores e atrocidades escondem aos seus olhos o rosto de Deus. Aproximando-nos a elas, devemos, sobretudo, evitar aparecer aos seus olhos como uma nova espécie de competidores. Nós devemos ser, no meio das pessoas, as testemunhas pacíficas do Todopoderoso, sem sombra de cobiça e de desprezo, capazes de tornarmos realmente seus melhores amigos. As pessoas aspiram à nossa amizade, uma amizade que as façam sentir de ser amadas por Deus e de ser salvas em Jesus Cristo”.

(Éloi Leclerc. La sapienza di um povero. Milano: Edizioni Biblioteca Francescana, 1989, pp. 148 – 149).

5/17/2012

EIS-ME AQUI

Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)


Quando uma pessoa diz “Eis-me aqui”, se coloca a disposição do outro com abertura, proximidade e gratuidade, como um dom.
Em Francisco Xavier, essa postura tem como origem e fundamento a total confiança em Deus e como caminho a humildade.
Diante da força avassaladora do Evangelho não adianta. Se a Palavra conseguir penetrar o coração como sentido último da existência, é difícil escapar.
Por volta de 1530, em Paris, Inácio de Loyola anuncia a essência do Evangelho a Francisco Xavier, no tempo oportuno e inoportuno, quando por ela parecia não haver interesse. Ele sabia que nenhuma criatura humana, antes ou depois, podia ficar indiferente.
De imediato, Francisco despreza Inácio, considera-o um homem esquisito, com formas de piedade pedantes, das quais se aproveita para fazer suas piadas.
O jovem navarro, ao contrário, orgulha-se de sua nobreza. Por um tempo, mantém um cavalo e um empregado por sua conta, gasta sempre mais do que o irmão Miguel lhe manda. Em suas dificuldades financeiras, porém, Inácio socorre-o com as esmolas que ganhava em serviços humildes. E teria dito que “esse jovem Francisco era a massa mais dura que ele jamais amassou”.
Mas um verdadeiro mestre sabe esperar. Finalmente, a palavra e o exemplo de Inácio conquistam o coração de Francisco para o seguimento radical de Jesus.
Daquele momento em diante, Xavier não exibe mais a presunção da nobre estirpe da qual descende, mas a disponibilidade do pobre servidor. Apresenta-se não mais com a arrogância da própria identidade, mas com o despojamento de uma nova postura. Uma vez chamado por Deus, não responde falando: “Estou aqui!”. Responde, ao invés, como Samuel: “Eis-me aqui!” (1Sm 3,4).
Quando uma pessoa diz “Eis-me aqui”, não afirma sua identidade com prepotência, mas se coloca à disposição do outro, com abertura, proximidade e gratuidade ... como um dom.
Eu sou um “eis-me aqui”. Essa expressão tira do “eu” a soberania e transforma a pessoa num ser disponível, aberto ao amor gratuito, sem pretensões de reciprocidade.
No Evangelho, encontramos Maria que responde ao anjo Gabriel: “Eis a escrava do Senhor” (Lc 1,38). Essa disponibilidade é típica dos pobres, dos empregados e da gente humilde. O escravo não se pertence, está totalmente à disposição do seu senhor. No nosso caso, porém, essa disponibilidade nasce da escolha livre, da resposta responsável e gratuita ao chamado de Deus.
Em Francisco Xavier, essa postura tem como origem e fundamento a total confiança e o abandono em Deus. Esse é o coração da sua experiência espiritual que tem como caminho a humildade. Para ele, sem a humildade, não se pode ser missionário. Mesmo sendo enviado às Índias como núncio apostólico por parte do Papa e delegado do rei de Portugal, ele faz questão de não usufruir dos títulos para obter privilégios. Quando viajava, tornava-se empregado dos passageiros do navio, o que despertava em todos a admiração pela sua pessoa. Seu programa era: “o meio para ganhar crédito e autoridade entre as pessoas é lavar a roupa, cozinhar sua própria comida, sem pretender o serviço dos outros, e, ao mesmo tempo, dedicar-se ao trabalho apostólico”. Quando chegava a uma cidade, ia alojar-se no meio dos pobres, trabalhando nos hospitais e pregando junto às crianças. Para Xavier, a humildade é a fonte da fecundidade apostólica, uma condição essencial para trabalhar pela glória de Deus e o bem das almas, numa expressão de amor e dedicação ao povo, que ele considerava como um “dono” ao qual se deve prestar conta.
Sua atitude de despojamento radical tornou-o verdadeiramente pobre com os pobres: Xavier soube cativar os pobres pelo próprio testemunho de pobreza. Suas idéias, convicções de fé e visões de mundo nem sempre eram compreendidas e nem sempre compreendiam os outros. Contudo, o Evangelho anunciado no testemunho da pobreza é a prova maior. “A pobreza é a verdadeira aparição divina da verdade”, escreveu o então cardeal Ratzinger. E a pobreza não é algo de abstrato: é lugar da manifestação de Deus, é condição essencial para seguir Jesus. Os ricos não entrarão no Reino de Deus. Ao contrário, bem-aventurados são os pobres, os mansos, os humildes, os crucificados da história. Neles, a Igreja reconhece “a imagem de seu Fundador pobre e sofredor” (Lumen Gentium 8c).

5/10/2012

4 PALAVRAS-CHAVE PARA ENTENDER A ESPIRITUALIDADE DE XAVIER

Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)

Busca

A juventude de Francisco Xavier é marcada por uma intensa procura do próprio sucesso, incentivada por um agudo sentido da nobreza e pelo desejo da fama. Francisco está percorrendo o próprio caminho, dando espaço a seus sonhos, a seus grandes ideais.

Nicodemos foi se encontrar de noite com Jesus (Jo 3,1-11). Toda busca tem uma “noite”. Nesses momentos, é preciso ter sonhos e ideais, metas que dão sentido também na escuridão. Nicodemos, apesar de velho, tem coragem de caminhar nessa noite: reconhece que lhe falta algo, mas consegue procurar no lugar certo. Buscar significa “renascer”, renascer pelo Espírito, renascer continuamente. Toda resposta parece sempre insatisfatória: a verdade permanece sempre “além”, mais adiante.

Escolha

Depois de muitas e insistentes tentativas, a Palavra de Deus consegue abrir uma brecha no coração de Francisco que, quase repentinamente, se converte a Cristo e faz a escolha que muda sua vida: junta-se a Inácio, entrega sua vida para um projeto maior, bem além de seus sonhos de juventude.

Zaqueu queria ver Jesus (Lc 19,1-10). Jesus, aproximando-se de Zaqueu, pede-lhe para “descer depressa” de seus efêmeros sucessos – a riqueza, o poder – para descobrir a alegria verdadeira de acolher o Senhor em sua casa. Zaqueu escolhe viver para o Senhor e doar tudo aos pobres. Agora sua vida é plena: “Hoje a salvação entrou nesta casa”.

Dom de si
A nova vida de Francisco é marcada pela mesma decisão e determinação de seus anos de juventude. Ele parte e não tem nenhuma intenção de voltar atrás. Ele rompe com seu passado e compromete-se totalmente com o presente. Sua disponibilidade não se expressa na pura obediência: torna-se um dom total de si em todas as coisas. Assim é no seu envio missionário – não programado e quase casual – que se torna lugar de seu dom total.

A viúva pobre deposita duas pequenas moedas no tesouro do Templo (Mc 12, 41-44). Jesus olha atento e surpreso. O dom total e gratuito não é fruto de riqueza, nem instrumento para ser elogiado pelo povo. O dom nasce da própria pobreza unida a uma total confiança em Deus: “na sua pobreza depositou tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver”.

Envio

Também para Francisco chega o dia da partida. É necessário deixar tudo, confiando que Deus não deixará faltar nada do necessário. O despojamento maior é o envio para um mundo distante, do qual ele sabe que não poderá mais voltar.

Jesus enviou setenta e dois discípulos para a missão (Lc 10,1-9). Partir de si, para se conformar a Cristo e assim doá-lo aos outros; sair para encontrar de verdade os outros, carregando as pessoas às quais somos enviados: assim os discípulos são enviados como “ovelhas no meio dos lobos”, na fraqueza de sua humanidade, deixando-se acolher, doando em troca a ternura pelos doentes, anunciando um Reino já próximo.


PRIMEIRO: CONFIAR EM DEUS

O fundamento na confiança em Deus representa o coração da experiência espiritual de Xavier. Trata-se do total abandono ao Pai, à sua providência e à sua misericórdia. Na sua ousada aventura missionária, essa confiança leva-o a enfrentar qualquer perigo e qualquer desafio. Antes de embarcar para a sua viagem final rumo à China, ele escreve em uma de suas últimas cartas:

“Para o povo do lugar, dois são os perigos que podemos correr: o primeiro é que o homem que nos conduz à China, depois de receber os duzentos cruzados, nos deixe numa ilha deserta ou nos jogue no mar; o segundo é que poderá nos conduzir a Cantão, diante do Governador. Esse vai nos torturar e nos jogar na prisão. Mas além desses perigos, há outros bem maiores. O primeiro é não esperar e não confiar mais na misericórdia de Deus. Considerando esse perigo da alma muito maior, estamos decididos ir à China com qualquer meio”.