por Eduardo Gabriel
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3/06/2013
8/27/2012
Vocação Missionária [Primeira Parte]
A única missão da Igreja
se diferencia pela diversidade das circunstancias em que ela é realizada. Há comunidades
com uma longa caminhada e com uma certa maturidade na vivencia da própria fé. Estas
se apresentam bem organizadas, capazes de responder adequadamente às suas
necessidades internas; contam com sacerdotes, religiosos e leigos
comprometidos; irradiam o testemunho do evangelho no seu ambiente; comprometem-se
de forma eficaz com a missão universal da Igreja. Nestas, a ação pastoral busca
animar a comunidade para que se mantenha sempre viva e cresça no seu dinamismo.
Outra situação de missão é a que se coloca entre grupos humanos que já formaram
comunidades vivas, mas que, no presente, estão como que envelhecidas. Perderam o
sentido vivo da sua fé e já não se reconhecem mais como membros da Igreja e nem
mesmo como discípulos de Cristo. Para estes ambientes, a Igreja fala da
necessidade de uma “nova evangelização”. É preciso ajudar estas pessoas a
redescobrirem o sentido de sua fé.
Para
ser missionário é preciso ter dentro de si um grande amor a Deus e uma grande
paixão pelo Reino, a tal ponto que ame de coração o povo para o qual foi
enviado.
A missão só pode ser vivida com expressão de amor.
Uma
terceira situação é a da missão vivida entre povos e grupos humanos onde Cristo
e o evangelho ainda não foram anunciados.
Este é propriamente o âmbito da
missão Ad Gentes (RMi 33).
Adaptação
do artigo de: BALSAN, Luiz; GIRARDI, Lírio. Vocação Missionária. Revista MISSÕES, Ano 30, n. 8, abr. 2003.
Formação Missionária, p.20. [Primeira Parte]
8/22/2012
A MISSÃO NASCE DO CORAÇÃO DE DEUS
“Pode
uma mãe esquecer-se do seu filho? Mesmo que uma mãe se esquecesse, Deus nunca
se esqueceria de nós” (Is 49, 15).
Esta frase do profeta Isaias torna-se uma
provocação para nós que estamos refletindo sobre a origem e a razão última da
missão.
Quando falamos de missão,
é espontâneo pensar no momento em que Jesus, antes de voltar para o Pai, reúne
seus discípulos e lhes confia sua própria missão: “vão pelo mundo inteiro e
anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade (Mt 16, 15). Seria esta a origem
da missão? Considerando atentamente o modo como Jesus apresenta, vemos como Ele
mesmo sabe que foi enviado.
“Quem escuta a vocês escuta a mim, e quem rejeita
vocês rejeita a mim; mas quem me rejeita, rejeita Aquele que me enviou” (Lc 10,
16). Só no evangelho de São João, Jesus usa por mais de 40 vezes as expressões “fui enviado e me enviou”.
O
MOTIVO DO ENVIO
Do contexto das frases de
Jesus entendemos que Ele se sente enviado pelo Pai. É Dele, portanto, que nasce
a missão. Jesus veio na plenitude dos tempos, mas, antes Dele, Deus havia
enviado Abraão, Moisés, Isaías e tantos outros que, como Ele, sonham com um
mundo melhor...
Mas por que tanta atenção
ao ser humano? Encontramos uma dica interessante no livro do Deuteronômio: “Se
Javé se afeiçoou de vocês e os escolheu, não é porque vocês são os mais
numerosos entre todos os povos; pelo contrário, vocês são o menor de todos os
povos!” (Dt 7, 7-8). Deus, portanto intervém na história e se revela por um
único motivo: porque é um Deus que ama.
O evangelista São João é
ainda mais incisivo: “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu
Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida
eterna!” (Jo 3, 16). O amor seguidamente rompe os limites da doação. Como nos
diz São Paulo, o amor é gratuito, nada espera em troca. A missão é, portanto, a
concretização do amor de Deus que quer a vida plena para todos os seus filhos.
Deus coloca-se ao lado dos pequeninos, toma sua defesa e os ama.
UMA
MISSÃO A TRES
A missão que encontra sua
fonte no amor do Pai e sua expressão máxima no envio do próprio Filho, é
fortemente marcada pela presença do Espírito. No momento em que Jesus desde às
águas do Jordão para ser batizado pelo seu precursor, os céus se abrem e sobre
Ele desce o Espírito Santo e o Pai o apresenta como o “Filho muito amado” (Lc 3, 22).
Ao apresentar sua missão
na sinagoga de Cafarnaum, Jesus diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres,
enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da
vista, para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”
(Lc 4, 18).
Consagrado, portanto pelo espírito, Jesus está agora pronto para
dar início à missão que lhe fora confiada. Da mesma forma, quando começa a
preparar os seus discípulos para assumir a missão que Ele mesmo recebera do
Pai. Jesus promete enviar o espírito Santo. É o Espírito da verdade que dará
testemunho de Cristo (Jo 15, 26) e os ajudará à recordar tudo o quanto Ele lhes
havia ensinado e os conduzirá à compreensão plena da verdade. Sua presença (Jo
16, 13-15). Sua presença na missão é tão essencial que os discípulos não devem
partir de Jerusalém antes de receber o espírito. Somente após a sua vinda, os
apóstolos poderão ser testemunhas de Cristo até os confins da terra (At 1,
6-11).
TU
ME AMAS
Aparecendo aos discípulos,
o Senhor ressuscitado dirige-se a Pedro, a quem escolheu como fundamento da
Igreja, e lhe pergunta: Pedro, tu me amas? Apesar da
resposta afirmativa do apóstolo, a pergunta de Jesus torna-se particularmente
incisiva ao ser repetida por três vezes. Pela convivência Jesus conhecia o
coração de Pedro e certamente sabia o quanto o apóstolo o amava. Mais que a
Pedro, esta insistência quer deixar um ensinamento a todos os quantos, ao longo
da história, vão consagrar a sua vida a esta mesma causa: a missão que brota de
Deus somente tem razão de ser se for vivida no amor.
Em sua encíclica sobre a
Missão (Redemptoris Missio), o Papa recorda
que o amor é o único critério pelo qual tudo deve ser feito ou não. Se Deus
intervém na história da humanidade movido unicamente pelo seu amor, este é
também o único motivo válido para a Igreja, dentro dela, cada pessoa
consagrar-se à missão. A missão pressupõe, portanto, discipulado e aprendizado.
6/21/2012
O VÔO DE MINHA VIDA
Por: Pe. Giovanni Mezzadri
Pe. Giovanni Mezzadri, conta como se tornou missionário xaveriano e qual foi o importante papel de um santo frei capuchino na sua caminhada. Atualmente é Vice Reitor do Seminário Xaveriano em Londrina –Pr.
Nasci em Parma, na Itália, próximo à Casa Mãe das Missionárias de Maria – Xaverianas. As mulheres da paróquia, como minha mãe, participavam freqüentemente das palestras das missionárias, sobretudo da fundadora Madre Celestina Bottego. As missionárias incentivavam as mulheres a rezar muito pelos povos do mundo inteiro, e a consagrar seus filhos à Nossa Senhora para as missões. Destas consagrações saíram um Bispo, dois padres xaverianos, dois padres diocesanos e várias Irmãs. Minha mãe morreu quando eu tinha nove anos de idade. Meu pai casou-se novamente e a segunda mãe nos acudiu com muito amor.
Na minha família recebíamos sempre a imprensa missionária dos xaverianos. Líamos com gosto as “aventuras” dos padres que trabalhavam na China. Um dia, num desses jornais, apareceu um artigo que falava dos poucos evangelizadores que havia na América Latina e que tinha um seminário que acolhia jovens para se tornarem missionários. Aquele artigo foi a rede que Jesus lançou para me apanhar. Infelizmente, porém, não fui generoso. Procurei escapar da rede, sufocar este chamado.
Fui trabalhar de torneiro mecânico numa firma de Parma. À noite estudava desenho técnico.
Depois fui para Ravenna, numa grande firma com três mil operários e ganhava bem melhor. O clima das fábricas naquele tempo era impregnado de anticlericalismo. Mas os missionários eram poupados das críticas, pois até os mais fanáticos comunistas tinham respeito para com a dedicação e a abnegação deles.
Meu objetivo era formar uma família. Namorei, mas depois de três meses desisti. Precisava antes resolver algo que não me deixava tranqüilo. Aquela moça não merecia ser enganada, pois eu ainda não sabia bem que rumo tomar na minha vida.
Tinha paixão por aviões e montava modelos de plástico: sonhava voar. Um dia, em Ravenna, surgiu um concurso para participar de um curso gratuito de pilotagem. Ganhei a vaga e consegui tornar-me piloto. Embalado pelo sucesso, e devendo cumprir com o serviço militar obrigatório, fui para a aeronáutica onde fiz o pedido de entrar na Academia para dirigir os aviões a jato.
Neste período, um primo meu convidou-me para ir a São Giovanni Rotondo onde tinha um tal de padre Pio que tinha o dom de ler o coração das pessoas. Ele estava precisando muito de uma orientação.
Quando chegamos, precisamos ficar três dias num hotel até que chegasse a nossa vez de sermos atendidos. Participávamos da Missa presidida por padre Pio todas as manhãs às 5h30, com a igreja sempre lotada de pessoas do mundo todo. A Missa durava quase duas horas. Padre Pio não falava nada, estava muito absorvido, concentrado no mistério que de uma certa maneira estava revivendo.
Quando terminava a Missa todos se aproximavam dele para beijar-lhe as mãos cobertas com uma luva para proteger as chagas, os estigmas, que ele já tinha recebido a muito tempo. Com as crianças era muito carinhoso, mas com os devotos exagerados era meio impaciente e os afastava de maneira áspera.
Depois de um cafezinho entrava no confessionário. Confessava muito mais os homens porque ele dizia que eram mais pecadores. Quando chegou a minha vez, contei-lhe que sentia uma certa atração pela vida missionária. Ele me respondeu de maneira severa: “que atração, que nada ... são três anos que você está resistindo ao chamado de Deus!”. Saí de lá chorando.
Quando voltei ao quartel da aeronáutica, fiz o pedido de entrar no seminário xaveriano.
Desse momento em diante Padre Pio sempre me acompanhou com a sua proteção ao longo de todo o vôo de minha vida.
6/14/2012
SIMPLESMENTE, DISPONÍVEIS
Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)
Nosso testemunho de jovens missionários se faz através de gestos simples.
Um dia Jesus passou a beira da praia e chamou os discípulos: “venham comigo e eu farei de vocês pescadores de homens”. Depois deste convite muitos homens e mulheres entregaram sua vida à missão de anunciar o Reino de Deus. Hoje Jesus continua passando nos nossos caminhos e chama a todos a se colocarem disponíveis.
Ser disponível à missão é ser apaixonado pelo Reino de Deus, é ter sede de ver, amar, saborear a ação de Deus que se encarna e se faz presente em meio à humanidade, contemplar sua ação nos povos e nas diferentes culturas.
Lutar por este Reino exige desapego e renúncias, pois é “uma pérola de grande valor” (Mt 13,44). Para adiquiri-la é preciso vender todos os bens, “deixar casa, família, amigos, irmãos” e doar a própria vida em favor dos outros.
O jovem que faz a sua opção fundamental por Jesus Cristo, descobrirá Nele o mais nobre ideal. Ao fazer esta profunda experiência não poderá guardá-la só para si: carregará consigo o desejo de que mais e mais pessoas O conheçam. Jesus nos chama para estar com Ele e nos envia para partilhar com os outros as suas maravilhas. Somos enviados por Cristo e em nome de Cristo: não possuimos nenhum projeto próprio, o nosso projeto é a plena adesão a Jesus que veio para “que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Seguir Jesus, o enviado do Pai, exige de nós uma profunda conversão que se expressa por um coração aberto a todos sem distinção de raça, língua, credo, ideologia ou classe social, fazendo-nos um instrumento de vida plena para todos.
O grande desafio é fazer a opção por aqueles que não estão “no centro” e por aquilo que não está “na moda”. A disponibilidade missionária convida-nos a fazer a opção pelo fraco e sofrido, pelo marginalizado, esquecido e explorado, chama-nos a andar na contramão e acreditar que outro mundo é possível.
Nosso testemunho de jovens missionários se faz através de gestos simples: só através da simplicidade podemos atingir a pessoa na sua humanidade, aproximar-nos de verdade aos outros, torna-nos capazes de ser presença entre os povos de uma maneira fraterna e calorosa. Nesta nossa sociedade onde prevalece o consumismo, a simplicidade torna-se denúncia e ação profética. Assim como o “Verbo se fez carne e armou a tenda entre nós” (Jo 1,14), também nós devemos nos tornar solidários com a realidade concreta dos grupos humanos onde nos inserimos.
A atenção, a gratuidade, a escuta, a caridade em favor dos que mais precisam, o empenho pela paz, pela justiça, a solidariedade com os simples, o respeito e a luta pelos direitos humanos são atitudes que nos fazem próximos dos pobres. Enquanto o mundo nos apresenta o prazer e o ter como centro e sentido da vida, nós jovens acreditamos que um mundo onde a busca pela justiça, a verdade, a honestidade, o respeito ao diferente, a ajuda mútua vencerá pouco a pouco as violências, injustiças, indiferenças, explorações e tudo que aflige a pessoa humana.
Se você carrega no peito “a estranha mania de ter fé na vida”, pare, reze, escute, procure perceber a voz de Deus que se comunica através dos acontecimentos e nos interpela a partir da nossa própria história. Ele nos convida a sair de nós mesmos e a partilhar nossos dons: “Jesus convida, conta contigo ... Mas é preciso ter coragem de morrer. Coração livre, comprometido, partilha tudo, sem ter medo de perder.” Ser disponível para a missão é de fato uma entrega ao serviço generoso e desinteressado, uma total doação à vontade do Pai para que sua salvação seja proclamada até os confins da terra.
6/07/2012
SEMPRE MAIS
No final de sua jovem vida, Francisco Xavier queria ir sempre mais além, encarando novos desafios. No Japão, ele tinha percebido que o povo era muito dependente da China, de onde tinha trazido a religião, a escritura e quase toda cultura espiritual. Mas as fronteiras da China estavam fechadas aos estrangeiros ...
Uma carta dos prisioneiros portugueses nos terríveis cárceres de Cantão animou-o a preparar uma viagem à China como embaixador do rei de Portugal. Mas, em Malaca, o capitão Álvaro de Ataíde, almirante dos mares do Oriente, se opôs a essa expedição. Mudado o plano inicial, o missionário insiste e não volta atrás: “Vou às ilhas de Cantão, desamparado de todo favor humano, na esperança de que algum gentio me levará à terra firme da China”. As dificuldades parecem impossíveis a serem vencidas. Mesmo assim, Xavier não desiste da idéia.
Antes de embarcar para a sua última viagem, sua imaginação está lá na frente, projetando o nosso missionário ainda mais além. Ouve falar de uma estrada que da China vai até Jerusalém. Francisco retoma um sonho de sua juventude, quando junto a Inácio e aos primeiros companheiros, faz o propósito de ir a Jerusalém com a intenção de levar aos muçulmanos um singelo testemunho de pobreza e de entrega a Deus. Neste projeto, ele tem um desejo louco de reencontrar Inácio, seu amigo e seu pai espiritual, que está em Roma e que não vê a mais de dez anos. Na última carta que lhe escreve de Goa, em abril de 1552, fala-lhe dessa possibilidade e já planeja concretizar seu sonho: “se isso for como me contam, eu o escreverei a Vossa santa Caridade, quantas léguas e quanto tempo precisará para chegar da China até Jerusalém”.
No final de agosto de 1552, Xavier chega à Ilha de Sancião, a 10 km da costa chinesa, ponto de encontro entre comerciantes portugueses e chineses. Lá encontra vários amigos, mas nenhum deles arrisca-se a levá-lo até a cidade de Cantão. Só um contrabandista chinês aceita de levar Xavier, clandestinamente, até o continente. Francisco, não tendo outras escolhas, aposta nesta ajuda, mas o homem desaparece depois de receber o dinheiro.
Em 21 de novembro, Xavier cai doente e fica desacordado com febre alta. Delira e repete muitas vezes: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. Com a agoniada meta diante dos olhos, ele morre na manhã do dia 3 de dezembro de 1552, com 46 anos, longe de todos, numa pobre cabana. Xavier é abandonado por quase todos sem poder concretizar seu mais ousado e ambicioso projeto. Ele é como Moisés que avista a Terra Prometida sem poder entrar nela. Sua visão de chegar às portas da realização do seu sonho é a herança de impulso, de audácia e de vitalidade missionária que deixou à posteridade.
Nessa última viagem transparece em Francisco Xavier aquele “homem espiritual” capaz de servir a Deus e ao próximo uma dinâmica chamada do “sempre mais”. Este é um princípio característico de Santo Inácio de Loyola, que cada membro da Companhia de Jesus, discernindo os sinais dos tempos, descobre no contexto dos desafios e das oportunidades que o mundo oferece, uma exigência apostólica de criatividade.
A Congregação Geral da Companhia de Jesus reafirma hoje com uma certa ousadia: “Os jesuítas nunca ficam satisfeitos com um estado de acomodação, do já conhecido, do já experimentado, do que já existe: somos continuamente levados a descobrir, redefinir e alcançar o ‘sempre mais’. Para nós, fronteiras ou limites não são obstáculos ou pontos de chegada, e sim novos desafios a serem encarados, novas ocasiões a serem aproveitadas. Verdadeiramente é típica da nossa maneira de proceder uma santa audácia, uma certa agressividade apostólica”.
Desta “santa audácia”, ou garra apostólica, Francisco Xavier é uma magnífica realização: nada parece frear seu ímpeto missionário. Quando ele descobre que Deus o chama nas Ilhas Molucas, ou no Japão, ou na China, a ousadia e a criatividade o levam a superar todo obstáculo, a encontrar todos os meios necessários para vencer as dificuldades e alcançar o objetivo que a caridade de Deus lhe aponta, com a certeza que “tudo é possível a quem tem fé” (Mc 11,23), porque “nada é impossível a Deus” (Lc 1,37).
Suas atitudes e suas escolhas expressam um único princípio fundamental: só Deus! Deus é mais! Deus é vida ... e convida as pessoas a apostarem sua vida com Ele.
Nos passos de Xavier
Com essas páginas terminamos a seção central de Família Xaveriana dedicada à espiritualidade de São Francisco Xavier, nesse ano em que se celebra o V centenário de seu nascimento. Quatro foram os aspectos abordados: a capacidade do missionário de sonhar com um mundo novo; sua disponibilidade radical em tornar-se dom para os outros; sua propensão à proximidade e à amizade com as pessoas; e agora, por último, a dimensão universal de seu chamado expresso na ousadia de ir sempre mais além, até chegar a todos. Tudo está centrado numa entrega total e confiante em Deus. Para Xavier, o missionário é nada, Deus é tudo. É Ele que faz acontecer a missão. A vida espiritual do missionário consiste na disposição de conformar sua vida na vida e na ação de Deus.
5/31/2012
O SONHO
Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)
Muitos jovens desejam tornar-se missionários e missionárias. Mas a missão não é apenas questão de boa vontade ou de querer salvar o mundo. Olhando para a vida de Francisco Xavier, podemos apontar para algumas qualidades: a primeira, é a capacidade de sonhar em grande, aprender a sonhar com Deus e realizar com ousadia e determinação os sonhos dele em nossa vida ...
Quando se alcança uma certa idade, não páram de passar pela cabeça aquelas perguntinhas que confundem e até criam o frio na barriga: “O que vou fazer, ou gostaria de fazer na minha vida? O que vou ser, ou gostaria de ser?”. Assim começa o sonho que caracteriza a juventude, e que cedo ou tarde pode fazer e construir a sua historia.
Será que você já se fez estas duas perguntas um dia? Mesmo que não tenha ainda uma resposta, isso não importa. O importante é fazer-se estas perguntas. Deixá-las habitar em sua vida e em seu pensamento, é um bom sinal! Um jovem que não sonha não merece ser chamado de jovem.
Então onde está indo? Para onde a vida está te levando? Tudo na vida da gente começa com sonhos. A “história feliz e vitoriosa” de muitas pessoas começou com um sonho, isto é, com algo que está ao mesmo tempo longe e perto do alcance, ao mesmo tempo possível e impossível de se realizar.
RECONSTRUIR CASTELOS?
É isso que a vida de São Francisco Xavier nos ensina. No começo, havia um sonho tão humano, bonito e natural de reabilitar a sua família arruinada pela guerra. Aos 11 anos de idade, ele tinha presenciado, com lágrimas nos olhos, a demolição do seu castelo e a ocupação das terras de seus pais. Não podia pensar em mais nada do que a reconstrução do castelo. Segundo seus cálculos, isso podia acontecer somente se ele se tornasse um homem sábio, um homem culto, um homem de igreja ... Desta maneira ia ganhar muito prestígio e muito dinheiro.
Por isso, pensou em prosseguir seus estudos na universidade de Paris, que era a mais famosa naquela época. Mas Deus escreve certo nas linhas tortas. Deus nos reserva surpresas no nosso caminhar. Soubemos no que deu este sonho de Francisco! Tudo, finalmente, tomou outro rumo ao ouvir repetidas vezes da boca de Inácio:“de que adianta ganhar o mundo inteiro se você perder a sua própria vida?”.
GANHAR NA MEGA-SENA?
Então jovem, não deixe de sonhar! Não deixe de sonhar imaginando que um dia acordará com tudo definido e programado em sua vida. Não deixe de sonhar pensando que um dia “vai pintar” uma luz em algum momento e tudo será resolvido. Não deixe de sonhar procurando soluções mágicas como, por exemplo, ganhar na loteria ou na mega-sena. Não deixe de sonhar deixando que seus pais ou seus irmãos decidam e sonhem por você. Não deixe de sonhar para seguir os caminhos da moda, do mundo, da onda e da “galera”.
É verdade que alguns deixam de sonhar porque o mundo, a sociedade, as circunstâncias da vida os empurram mais cedo na luta para a sobrevivência. Mas não pense que tudo na vida é só uma questão de sorte: isso é o mal do nosso mundo. As conquistas na vida são sempre fruto de um grande sonho no qual se acreditou e para o qual se lutou com ousadia e determinação.
FAZER ESCOLHAS
Os que realizaram seus sonhos, conseguiram porque os levaram a sério, com coragem, com responsabilidade, com perseverança e com esperança. Isso significa que se deve saber “fazer escolhas”, a partir de uma escala de valores. Fazer escolhas significa também renunciar às coisas que não combinam com os nossos sonhos. Isso quer dizer também não se deixar levar pela onda do momento. Não se realiza um sonho sem sacrifício, sem renúncia. Na vida não se pode tudo, como também não se pode ter tudo.
SONHAR EM MUTIRÃO
Enfim, nunca esqueça daquela canção: “um sonho que se sonha só, pode ser pura ilusão, sonho que se sonha juntos é sinal de solução. Então vamos sonhar companheiros, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão”. O sonho de Francisco Xavier tornou-se realidade porque sonhou em grande, juntos com seus companheiros. Na noite em que ele falece, tem a companhia de um crucifixo, de um fiel amigo chinês e de um pequeno estojo em seu pescoço com uma relíquia de São Tomé, a fórmula de sua profissão religiosa e as assinaturas de seus amigos recortadas das cartas deles. Tinha deixado a sua “verdadeira família” em Roma para nunca mais revê-la. Mas ela não estava longe: Francisco a guardava sempre no lado esquerdo do peito.
5/24/2012
A AMIZADE
A celebração dos 500 anos do nascimento de São Francisco Xavier é uma ocasião para redescobrir uma figura missionária extraordinária que, através de sua profunda humanidade e disposição para a amizade, encontrou o caminho da santidade no encanto pelo rosto do outro e do pobre ... um encanto que o conduz ao pleno encontro com Deus.
Os biógrafos de Francisco Xavier dizem que seu aspecto físico e exterior revelava uma pessoa fisicamente forte e equilibrada: “O Padre Francisco era de estatura antes grande que pequena, tinha o rosto bem proporcionado, branco e corado, alegre e de muito boa graça; os olhos negros, a fronte larga, o cabelo e barba pretos”, escreve o Pe. Manoel Teixeira.
Suas qualidades, moldadas desde a infância pela educação familiar e por uma vida marcada pelos conflitos, o habilitavam a resistir às fadigas do ministério e a enfrentar os riscos e os perigos das viagens daquele tempo. Era também uma pessoa dotada de grande inteligência e de sensibilidade aguda, curiosa e interessada a tudo, interiormente livre e afetivamente rica, madura, coerente, psicologicamente bem identificada. Xavier é capaz de defender suas idéias e, ao mesmo tempo, é aberto às novidades, sobretudo, às relações interpessoais, graças a um temperamento feliz e expansivo, comunicativo e alegre, com uma extraordinária disposição à amizade.
Essa sua amizade é dirigida em primeiro lugar a seus companheiros, particularmente a Inácio de Loyola, ao qual era afetuosamente muito ligado. Partindo de Roma, Francisco sabe que não o encontrará mais e então ele sonha com o dia em que no céu o encontrará “face a face e com muitos abraços”. Mas antes de embarcar para a sua última viagem rumo à China, ouve falar de uma estrada que da China vai até Jerusalém. Francisco retoma um sonho de sua juventude, quando junto a Inácio e aos primeiros companheiros, faz o propósito de ir a Jerusalém com a intenção de levar aos muçulmanos um singelo testemunho de pobreza e de entrega a Deus. Neste projeto, ele tem um desejo louco de reencontrar Inácio, seu amigo e seu pai espiritual, que está em Roma e que não vê a mais de dez anos. Na última carta que lhe escreve de Goa, em abril de 1552, fala-lhe dessa possibilidade e já planeja concretizar seu sonho: “se isso for como me contam, eu o escreverei a Vossa Santa Caridade, quantas léguas e quanto tempo precisará para chegar da China até Jerusalém”.
Poucos meses depois, Francisco morrerá na Ilha de Sancião na companhia de um Crucifixo, de um fiel amigo chinês e de um pequeno estojo com as assinaturas de Inácio e de todos seus companheiros, recortadas das cartas deles. Ele as levava sempre consigo, guardando-as do lado esquerdo do peito.
Francisco sabia que tinha um grande coração que o amarrava facilmente às pessoas. Ele precisava dominar, de vez em quando, seus sentimentos. Ele conta que, depois de uma quaresma em Ternate nas Ilhas Molucas, teve que embarcar escondido a meia noite para evitar de deparar com os “choros e prantos dos meus devotos, amigos e amigas”. Em vão. Uma multidão de indígenas o estava esperando na praia para despedir-se dele.
Francisco tinha o dom de criar e manter profundas relações humanas, de saber falar com as pessoas de todas as classes sociais, desde os príncipes até o último pobre pescador, desde os mais devotos cristãos até os marinheiros e os comerciantes que encontrava, capaz de explicar o catecismo aos mais humildes e de encarar o Rei de Portugal. Numa de suas cartas, ele afirma: “Eu vou no meio do povo sozinho, sem intérprete. Eles não me entendem e nem eu entendo eles. Batizo os recém-nascidos e outras pessoas que encontro para batizar: para isso não preciso de intérpretes. Os pobres me fazem entender suas necessidades sem intérpretes e eu, olhando-os, os entendo sem intérpretes. Para as coisas mais importantes não preciso de intérpretes”.
Em Goa, um dos seus jovens confrades relata: “Ele era sempre carinhoso, cheio de espírito em seus discursos, era o primeiro a colocar a sela e a dar de comer aos nossos cavalos. Falava de Deus e ganhava os corações de todos os que o ouviam. Em qualquer lugar, ele deixava a impressão de sua santidade e, sobretudo, do seu amor”.
Ao Rei de Portugal escreve nove cartas sobre problemas muito delicados relativos a sua vida espiritual, como também sobre sua maneira de governar e de vigiar seus subordinados que oprimiam o povo e não se preocupavam com as exigências da vida cristã. Francisco era uma daquelas pessoas que se apaixonavam para o bem, a justiça e para a defesa dos direitos dos pobres. Ele não tem medo de chamar as coisas com o nome delas, sem alguma reserva.
A simplicidade e a linearidade do caráter de Francisco Xavier transparecia também pela sua maneira de vestir, que era muito simples, em nada suntuosa, mesmo sabendo de ser o Núncio Apostólico do Papa para o Oriente. Assim o descreve o Pe. Teixeira: “trazia uma batina pobre e limpa, sem faixa nem manto, pois este era o traje dos sacerdotes pobres da Índia ... Era muito afável com os de fora, alegre e familiar com os de casa”. Como as pessoas verdadeiramente grandes, Xavier não mostrava sua grandeza na aparência, mas na caridade.
Nesta simplicidade e pobreza, Francisco Xavier seguia a disposição das primeiras Constituições da Companhia de Jesus que diziam quanto “mais suave, mais pura, mais edificante para os fiéis é a vida quando é absolutamente distante de toda sombra de interesse e mais conforme à pobreza”.
Para concluir este retrato da personalidade de Xavier, é lícito perguntarmos se este homem não tivesse tido algum defeito. Com certeza, no seu ardor missionário deve ter incomodado muitas pessoas e, sendo um homem de grande atividade, terá precisado de alguém, depois dele, que colocasse em ordem as coisas e tudo o que não conseguia acabar. Podemos pensar que, em alguma ocasião, pode ter exagerado em contrastar as pretensões e as injustiças causadas pelos portugueses nas colônias. Particularmente, deve ter feito sofrer as pessoas medíocres. No final, porém, deve ter sido perdoado de tudo pela sua bondade alegre e sua generosidade.
OS MELHORES AMIGOS DAS PESSOAS
Essa disposição à proximidade e à amizade com as pessoas, pode ser encontrada também na experiência missionária de outro grande Francisco, o de Assis. Nesse diálogo com frei Tancredi, ele esclarece qual é o papel da amizade no anúncio da Boa a Nova aos outros:
“O Senhor nos enviou a evangelizar os povos. Mas você nunca refletiu o que significa isto? Evangelizar uma pessoa significa dizer-lhe: ‘Você também é amado por Deus em Cristo’. Não basta dizê-lo: precisamos estar convencidos. Não basta também estarmos convencidos: devemos agir com aquela pessoa de modo que ela perceba e descubra em si mesma algo que foi salvo, algo de mais grande e mais nobre que ela não tivesse pensado antes. Devemos, enfim, provocar nela o despertar de uma nova consciência de si mesma. Isso significa anunciar-lhe a Boa Nova. Contudo, não poderá obter este bom resultado se não oferecendo àquela pessoa a tua amizade: uma amizade real, desinteressada, sem complacência, toda alimentada de confiança e de estima recíproca.
Nós devemos ir às pessoas. Isso não é fácil. O mundo humano é um imenso campo de batalha onde as pessoas combatem para se enriquecer e dominar. Demasiadas dores e atrocidades escondem aos seus olhos o rosto de Deus. Aproximando-nos a elas, devemos, sobretudo, evitar aparecer aos seus olhos como uma nova espécie de competidores. Nós devemos ser, no meio das pessoas, as testemunhas pacíficas do Todopoderoso, sem sombra de cobiça e de desprezo, capazes de tornarmos realmente seus melhores amigos. As pessoas aspiram à nossa amizade, uma amizade que as façam sentir de ser amadas por Deus e de ser salvas em Jesus Cristo”.
(Éloi Leclerc. La sapienza di um povero. Milano: Edizioni Biblioteca Francescana, 1989, pp. 148 – 149).
5/17/2012
EIS-ME AQUI
Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)
Quando uma pessoa diz “Eis-me aqui”, se coloca a disposição do outro com abertura, proximidade e gratuidade, como um dom.
Em Francisco Xavier, essa postura tem como origem e fundamento a total confiança em Deus e como caminho a humildade.
Diante da força avassaladora do Evangelho não adianta. Se a Palavra conseguir penetrar o coração como sentido último da existência, é difícil escapar.
Por volta de 1530, em Paris, Inácio de Loyola anuncia a essência do Evangelho a Francisco Xavier, no tempo oportuno e inoportuno, quando por ela parecia não haver interesse. Ele sabia que nenhuma criatura humana, antes ou depois, podia ficar indiferente.
De imediato, Francisco despreza Inácio, considera-o um homem esquisito, com formas de piedade pedantes, das quais se aproveita para fazer suas piadas.
O jovem navarro, ao contrário, orgulha-se de sua nobreza. Por um tempo, mantém um cavalo e um empregado por sua conta, gasta sempre mais do que o irmão Miguel lhe manda. Em suas dificuldades financeiras, porém, Inácio socorre-o com as esmolas que ganhava em serviços humildes. E teria dito que “esse jovem Francisco era a massa mais dura que ele jamais amassou”.
Mas um verdadeiro mestre sabe esperar. Finalmente, a palavra e o exemplo de Inácio conquistam o coração de Francisco para o seguimento radical de Jesus.
Daquele momento em diante, Xavier não exibe mais a presunção da nobre estirpe da qual descende, mas a disponibilidade do pobre servidor. Apresenta-se não mais com a arrogância da própria identidade, mas com o despojamento de uma nova postura. Uma vez chamado por Deus, não responde falando: “Estou aqui!”. Responde, ao invés, como Samuel: “Eis-me aqui!” (1Sm 3,4).
Quando uma pessoa diz “Eis-me aqui”, não afirma sua identidade com prepotência, mas se coloca à disposição do outro, com abertura, proximidade e gratuidade ... como um dom.
Eu sou um “eis-me aqui”. Essa expressão tira do “eu” a soberania e transforma a pessoa num ser disponível, aberto ao amor gratuito, sem pretensões de reciprocidade.
No Evangelho, encontramos Maria que responde ao anjo Gabriel: “Eis a escrava do Senhor” (Lc 1,38). Essa disponibilidade é típica dos pobres, dos empregados e da gente humilde. O escravo não se pertence, está totalmente à disposição do seu senhor. No nosso caso, porém, essa disponibilidade nasce da escolha livre, da resposta responsável e gratuita ao chamado de Deus.
Em Francisco Xavier, essa postura tem como origem e fundamento a total confiança e o abandono em Deus. Esse é o coração da sua experiência espiritual que tem como caminho a humildade. Para ele, sem a humildade, não se pode ser missionário. Mesmo sendo enviado às Índias como núncio apostólico por parte do Papa e delegado do rei de Portugal, ele faz questão de não usufruir dos títulos para obter privilégios. Quando viajava, tornava-se empregado dos passageiros do navio, o que despertava em todos a admiração pela sua pessoa. Seu programa era: “o meio para ganhar crédito e autoridade entre as pessoas é lavar a roupa, cozinhar sua própria comida, sem pretender o serviço dos outros, e, ao mesmo tempo, dedicar-se ao trabalho apostólico”. Quando chegava a uma cidade, ia alojar-se no meio dos pobres, trabalhando nos hospitais e pregando junto às crianças. Para Xavier, a humildade é a fonte da fecundidade apostólica, uma condição essencial para trabalhar pela glória de Deus e o bem das almas, numa expressão de amor e dedicação ao povo, que ele considerava como um “dono” ao qual se deve prestar conta.
Sua atitude de despojamento radical tornou-o verdadeiramente pobre com os pobres: Xavier soube cativar os pobres pelo próprio testemunho de pobreza. Suas idéias, convicções de fé e visões de mundo nem sempre eram compreendidas e nem sempre compreendiam os outros. Contudo, o Evangelho anunciado no testemunho da pobreza é a prova maior. “A pobreza é a verdadeira aparição divina da verdade”, escreveu o então cardeal Ratzinger. E a pobreza não é algo de abstrato: é lugar da manifestação de Deus, é condição essencial para seguir Jesus. Os ricos não entrarão no Reino de Deus. Ao contrário, bem-aventurados são os pobres, os mansos, os humildes, os crucificados da história. Neles, a Igreja reconhece “a imagem de seu Fundador pobre e sofredor” (Lumen Gentium 8c).
5/10/2012
4 PALAVRAS-CHAVE PARA ENTENDER A ESPIRITUALIDADE DE XAVIER
Por: Missionários Xaverianos (Redação: xaverianos.org.br)
Busca
A juventude de Francisco Xavier é marcada por uma intensa procura do próprio sucesso, incentivada por um agudo sentido da nobreza e pelo desejo da fama. Francisco está percorrendo o próprio caminho, dando espaço a seus sonhos, a seus grandes ideais.
Nicodemos foi se encontrar de noite com Jesus (Jo 3,1-11). Toda busca tem uma “noite”. Nesses momentos, é preciso ter sonhos e ideais, metas que dão sentido também na escuridão. Nicodemos, apesar de velho, tem coragem de caminhar nessa noite: reconhece que lhe falta algo, mas consegue procurar no lugar certo. Buscar significa “renascer”, renascer pelo Espírito, renascer continuamente. Toda resposta parece sempre insatisfatória: a verdade permanece sempre “além”, mais adiante.
Escolha
Depois de muitas e insistentes tentativas, a Palavra de Deus consegue abrir uma brecha no coração de Francisco que, quase repentinamente, se converte a Cristo e faz a escolha que muda sua vida: junta-se a Inácio, entrega sua vida para um projeto maior, bem além de seus sonhos de juventude.
Zaqueu queria ver Jesus (Lc 19,1-10). Jesus, aproximando-se de Zaqueu, pede-lhe para “descer depressa” de seus efêmeros sucessos – a riqueza, o poder – para descobrir a alegria verdadeira de acolher o Senhor em sua casa. Zaqueu escolhe viver para o Senhor e doar tudo aos pobres. Agora sua vida é plena: “Hoje a salvação entrou nesta casa”.
Dom de si
A nova vida de Francisco é marcada pela mesma decisão e determinação de seus anos de juventude. Ele parte e não tem nenhuma intenção de voltar atrás. Ele rompe com seu passado e compromete-se totalmente com o presente. Sua disponibilidade não se expressa na pura obediência: torna-se um dom total de si em todas as coisas. Assim é no seu envio missionário – não programado e quase casual – que se torna lugar de seu dom total.
A viúva pobre deposita duas pequenas moedas no tesouro do Templo (Mc 12, 41-44). Jesus olha atento e surpreso. O dom total e gratuito não é fruto de riqueza, nem instrumento para ser elogiado pelo povo. O dom nasce da própria pobreza unida a uma total confiança em Deus: “na sua pobreza depositou tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver”.
Envio
Também para Francisco chega o dia da partida. É necessário deixar tudo, confiando que Deus não deixará faltar nada do necessário. O despojamento maior é o envio para um mundo distante, do qual ele sabe que não poderá mais voltar.
Jesus enviou setenta e dois discípulos para a missão (Lc 10,1-9). Partir de si, para se conformar a Cristo e assim doá-lo aos outros; sair para encontrar de verdade os outros, carregando as pessoas às quais somos enviados: assim os discípulos são enviados como “ovelhas no meio dos lobos”, na fraqueza de sua humanidade, deixando-se acolher, doando em troca a ternura pelos doentes, anunciando um Reino já próximo.
PRIMEIRO: CONFIAR EM DEUS
O fundamento na confiança em Deus representa o coração da experiência espiritual de Xavier. Trata-se do total abandono ao Pai, à sua providência e à sua misericórdia. Na sua ousada aventura missionária, essa confiança leva-o a enfrentar qualquer perigo e qualquer desafio. Antes de embarcar para a sua viagem final rumo à China, ele escreve em uma de suas últimas cartas:
“Para o povo do lugar, dois são os perigos que podemos correr: o primeiro é que o homem que nos conduz à China, depois de receber os duzentos cruzados, nos deixe numa ilha deserta ou nos jogue no mar; o segundo é que poderá nos conduzir a Cantão, diante do Governador. Esse vai nos torturar e nos jogar na prisão. Mas além desses perigos, há outros bem maiores. O primeiro é não esperar e não confiar mais na misericórdia de Deus. Considerando esse perigo da alma muito maior, estamos decididos ir à China com qualquer meio”.
5/03/2012
PARA QUE O MUNDO SE TORNE UMA SÓ FAMÍLIA
Por: Pe. Estêvão Raschietti, sx

O Evangelho de Jesus é Boa Notícia para os pobres, mas é notícia ruim para os ricos. Eis a mensagem da parábola do homem rico, que vive dando festas e deixa o pobre Lázaro com as migalhas (cf. Lc 16,19-31). Esta situação ilustra bem a realidade do nosso mundo onde os ricos se tornam cada vez mais ricos, enquanto os pobres, cada vez mais pobres.
A Palavra de Deus é clara: é necessário converter-se, deixar de ser egoístas, deixar de acumular riquezas para tornar-se discípulos do Senhor que anunciam, com a voz e com a vida, um mundo mais justo e fraterno, denunciando toda desigualdade e toda injustiça. O reino de Deus é a realização das promessas proclamadas por Maria: “derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). É o advento da vida plena para todos!
Muitos missionários e missionárias ao longo do séculos foram anunciando esse reino de Deus em todos os cantos do mundo espalhando vida, cuidando dos pobres, defendendo a causa dos excluídos, curando os leprosos, defendendo o direito das vítimas da injustiça e da opressão. Foram reconhecidos e acolhidos pelos povos através de seu testemunho de vida íntegra, alegre, fraterna, solidária. Apesar das luzes e sombras na história da evangelização, muitos missionários e missionárias souberam reconhecer e valorizar as culturas, as sabedorias e as pessoas junto às quais foram enviados.
Os xaverianos, dentre eles, foram antes à China e depois a vários países da África, da Ásia, das Américas e da Europa. Dom Guido Maria Conforti transmitiu-lhes um grande ideal: fazer com que o mundo se torne uma só família. Para isso, uma verdadeira transformação há que acontecer: as desigualdades devem ser sanadas, os ricos devem possuir apenas o necessário e a partilha deve reinar. “Ricos, chega de luxo!”, ele dizia com veemência, “todo o supérfluo não é mais de vocês: é patrimônio dos pobres!”.
Em resposta a esse desafio, muitos missionários xaverianos e xaverianas ainda hoje saem de sua terra e de sua casa para tornar-se próximos dos Lázaros da vida. Muitos jovens de vários países se dispõem a seguir Jesus pelo caminho da missão além-fronteiras, doando sua própria vida, suas energias, seus talentos, seus sonhos. Ser xaveriano é um caminho de conversão, de missão e de partilha junto às vítimas do mundo todo.
Você também pode tornar-se um de nós junto com sua família para uma família muito maior, acreditando que um outro mundo, sem Lázaros nem ricos, é possível. Comece a mudá-lo mudando você mesmo. Venha caminhar conosco!
4/06/2012
LEIGOS E LEIGAS NO PROTAGONISMO DA EVANGELIZAÇÃO
Por: Dom Milton Kenan Júnior (Região Episcopal Brasilândia – SP)
A expressão não é nova, ela surge na Conferência de Santo Domingo (1992): “Que todos os leigos sejam protagonistas da Nova Evangelização, da promoção humana e da cultura cristã.” (n.97) (...) “Um laicato, bem-estruturado com formação permanente, maduro e comprometido, é o sinal de Igrejas Particulares que têm tomado muito a sério o compromisso da Nova Evangelização.” (n.103).
Hoje, talvez, precisássemos recuperar a intuição que o Episcopado Latino-americano assumiu, na Conferência de Santo Domingo, quando fala do “protagonismo dos leigos”; embora na Conferência de Aparecida essa expressão não apareça nenhuma vez. Falar de protagonismo, é falar do lugar de importância que os leigos têm na ação evangelizadora, é falar do seu papel insubstituível, imprescindível, na transformação da realidade que vivemos, marcada pela exclusão e pela violência.
Os leigos são protagonistas, afirmaram os bispos em Santo Domingo, ou seja, são os agentes principais no esforço da Igreja em dialogar com o mundo e apresentar os valores do Evangelho num tempo de tantos contra-valores.
Nesse sentido, o Documento de Aparecida e agora o das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil, DGAE 2011-2015, ressaltam dois princípios de grande valor e importância.
O primeiro princípio é o da corresponsabilidade. Leigos e Leigas devem participar, como sujeitos, com vez e voz, na elaboração dos programas pastorais, nos centros de discussão e decisão nas Igrejas Particulares. Referindo-se ao projeto pastoral da Diocese, o Documento de Aparecida afirma: “Os leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões, do planejamento e da execução.” (n.371). Não podem, portanto, verem reduzida a sua participação apenas ao momento de encaminhar e realizar os programas, mas sentirem-se participantes desde o início, por força da sua condição de cristão batizado, habilitado pelos sacramentos do Batismo e da Confirmação, a participar plenamente da vida da Igreja.
É ainda o Documento de Aparecida que esclarece: “A evangelização do Continente, dizia-nos o papa João Paulo II, não pode realizar-se hoje sem a colaboração dos fiéis leigos. Hão de ser parte ativa e criativa na elaboração e execução de projetos pastorais a favor da comunidade. Isso exige, da parte dos pastores, maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o “ser” e o “fazer” do leigo na Igreja, que por seu batismo e sua confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo.” (n.213).
As DGAE 2011-2015 ressaltam: “Os leigos, corresponsáveis com o ministério ordenado, atuando nessas assembleias, conselhos e comissões, tornam-se cada vez mais envolvidos no planejamento, na execução e na avaliação de tudo que a comunidade vive e faz.” (n.104.c).
O segundo princípio é o da missão. Os Documentos do Episcopado Latino-americano afirmam exaustivamente que o campo específico da ação dos leigos e leigas é o das realidades onde vivem e trabalham, ou seja, é o mundo da família, do trabalho, da cultura, da política, do lazer, da arte, da comunicação, da universidade etc.
Em função disso, “a formação dos leigos e leigas deve contribuir, antes de mais nada, para sua atuação como discípulos missionários no mundo, na perspectiva do diálogo e da transformação da sociedade. É urgente uma formação específica para que possam ter incidência significativa nos diferentes campos, sobretudo ‘no vasto mundo da política, da realidade social e da economia, como também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos meios de comunicação e de outras realidades abertas à evangelização’ (EN 70).” (DAp 283).
As DGAE 2011-2015 incentivam a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, nos Conselhos de Direitos, em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar a convivência pacífica, no fortalecimento da sociedade civil, e de controle social. Destaca também a participação na busca de políticas públicas que ofereçam as condições necessárias ao bem-estar de pessoas, famílias e povos; e a formação de pensadores e pessoas que estejam nos níveis de decisão evangelizando com especial atenção e empenho. (cf. n.115-117).
Entre os diversos espaços em que a presença dos leigos e leigas, hoje, é imprescindível destacam-se: o mundo universitário, o mundo da comunicação, e a presença pastoral junto dos políticos e formadores de opinião no mundo do trabalho, dirigentes sindicais e comunitários (n.117).
Há, portanto, no pensamento dos bispos latino-americanos e brasileiros uma condição e uma exigência para o protagonismo dos leigos. A condição é de que leigos e leigas possam ocupar o lugar que lhes cabe na vida das comunidades, sentindo-se, de fato, como sujeitos corresponsáveis na elaboração e realização de projetos e programas de evangelização. E a exigência é a sua atuação evangélica nas realidades onde vivem e atuam, para que à semelhança do fermento possam levedar toda realidade humana com a força do Evangelho.
Este é o grande desafio que hoje não só leigos e leigas enfrentam, mas todo o corpo eclesial: superar o conceito de leigo como inferior, subalterno e destinatário da ação evangelizadora; e formar leigos e leigas para que possam, nas realidades que lhe são específicas, agir como agentes eclesiais, discípulos missionários de Jesus Cristo.
Ao falar do protagonismo dos leigos é indispensável falar de verdadeira conversão pastoral, como é proposta pelo Documento de Aparecida, no espírito da comunhão e libertação (cf. n.368), ultrapassando uma pastoral de mera conversão para uma pastoral decididamente missionária (n.370).
Oxalá leigos e leigas possam exercer seu protagonismo na vida de nossas comunidades eclesiais e assumirem com renovado entusiasmo sua missão nas realidades onde, na sua maioria e na maior parte do seu tempo, estão. Isso exige coragem! O Espírito de Deus certamente não lhes faltará
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