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11/11/2015

VIDA SIM, CORRUPÇÃO NÃO

Epidemia e farra da corrupção

A onipresença da corrupção, até agora muito velada, começa a ser aos poucos desvelada. Conhecemos só a ponta do iceberg. Quando as investigações chegarem nos bancos, nos portos e aeroportos, nas religiões e no narcotráfico, na polícia e nos governos, no esporte e no comércio, no agronegócio e nas industrias, nas diversas organizações econômicas, sociais e políticas, haveremos de nos convencer  da atualidade do sétimo mandamento: Não roubar.
Cada um de nós sabe por experiência como somos desonestos, mentirosos, interesseiros em relação ao dinheiro. A natureza humana nasce corrompida. Sem a educação moral, sem a fé, sem a graça de Deus a tendência à corrupção não é curada. Pior ainda, ela é amparada por outra perversidade que é a mentira. Entre nós brasileiros a corrupção tornou-se “cultura do jeitinho”, do levar vantagem em tudo. Mentir e roubar é como um casamento indissolúvel.
Sabemos que a corrupção é uma das “piores deformações” do ser
humano e da sociedade. A Reforma Política proposta pela “Coalizão de Entidades" entre elas a CNBB, quer coibir o financiamento das empresas a candidatos às eleições. É um basta à corrupção na política. Do contrário, continuaremos com a política do jeito, do favor, da ocultação, da politicagem. O povo, saturado, enojado e indignado com tanta corrupção foi para as ruas dizer um basta. Será que foi ouvido?
As consequências da corrupção são inúmeras causando prejuízos e morte. As áreas mais afetadas são: o saneamento básico, o emprego, a educação, a saúde, as desigualdades sociais, as políticas publicas, o tráfico de pessoas, a ilegalidade, a impunidade, o crime organizado. Tem razão o Papa Francisco ao dizer a corrupção é uma porcaria, uma sujeira, lama pura, vergonha e escândalo.
Carecemos de desenvolvimento ético, espiritual, humanitário. Em pleno século 21 ainda somos analfabetos e incivilizados no que diz respeito à transparência, à verdade, aos valores humanos e morais. Rejeitando a oferta e a sabedoria do reino de Deus, preferimos construir um mundo sem Deus. O que aconteceu foi a criação de um mundo contra o homem , a vida, o cosmos. No lugar da conversão, preferimos a aversão, a diversão, a subversão, a corrupção.
Somos interpelados a reverter o que está invertido. As potencialidades do bem, a força do amor, a iluminação da fé, a honestidade intelectual, são mais fortes que o império do mal. Façamos como o garimpeiro que no meio da lama encontra ouro e pérolas. Não podemos deixar de ser devotos da vida e da dignidade humana. Um mundo novo é possível e o desejo de ser bom e melhor, mora no fundo de cada coração. Há lá no fundo uma luz.
Os cristãos acreditam na recuperação das pessoas, no poder da ternura, da misericórdia. Sobretudo acreditam na justiça, no amor, na liberdade e na verdade como pilares da sociedade. Cremos na invencibilidade do bem e no poder do bom senso, da retidão, da compaixão como meios de mudança social. O cristão é portador do reino de Deus, da Doutrina Social da Igreja sob a luz do Evangelho. Os valores da Teologia, da Libertação, da opção pelos pobres, da profecia não desapareceram mas precisam ser reabilitados. A volta do conservadorismo é assustadora. O pontificado de Papa Francisco tornou-se um sinal dos tempos para a contribuição de um mundo melhor e a superação de toda espécie da corrupção.

O sociólogo Sergio Cotta, escreve que todas as revoluções da humanidade estão em busca da inocência perdida no jardim do Paraíso. Há um desejo de transparência, coerência, purificação do coração na humanidade. Lembremo-nos de Jesus Cristo, dos nossos santos e santas, de Gandhi, de Martin Luther King, de Teresa de Calcutá, de Mandela, de Dom Helder, Dom Luciano e grandes pontífices: São João XXIII, São João Paulo II, Beato Paulo VI. Todos eles foram profetas que denunciaram a corrupção.  Jesus expulsou os vendilhões do templo com ira profética, assim devem fazer seus discípulos.
A fome de dinheiro é o supremo afrodisíaco, afirma um grande estadista.
O povo costuma dizer: “o dinheiro compra tudo”. Como seria bom lembrar que quando formos sepultados “o caixão não tem gaveta”. Sim, a divinização do dinheiro que é a atualização da idolatria do “bezerro de ouro”, clama pela indignação ética e pela observância dos Dez Mandamentos. A exemplo do profeta Moisés é preciso destruir o ídolo perverso, que é a corrupção. Falta-nos a educação para a justiça e a espiritualidade da pobreza evangélica, da partilha e da sobriedade. Corrupção nunca mais. Ah, se procurássemos a Deus como procuramos o dinheiro a sociedade seria bem melhor. Vida sim, corrupção não.

Orlando Brandes

Arcebispo de Londrina

4/28/2014

BUSQUEMOS A SANTIDADE

DIA GLORIOSO E INESQUECÍVEL
Refiro-me ao dia da canonização dos Papas XXIII e João Paulo II. Que privilégio para nossa geração que os conheceu e agora os venera na glória dos altares. São santos modernos. Um veio do meio dos camponeses,  o outro saiu do meio dos operários. Ambos conquistaram o mundo. Um pela bondade, o outro pela jovialidade. Um anunciou e iniciou o Concílio Vaticano II, o outro proclamou que o Concilio é a maior graça do século XX introduziu a Igreja no novo milênio.
Ambos sofreram os horrores das guerras e foram profetas da paz. Abraçaram a cruz até o fim. Tornaram a Igreja mais santa, mais atraente, mais convincente. Um foi eleito papa com 77 anos, o outro com 58 apenas. O velho foi chamado de “Joãozinho” pelos romanos e rejuvenesceu a Igreja, o mais novo consagrou o mundo à Divina Misericórdia e cativou a humanidade. Um disse no dia da eleição: “eu sou vosso irmão”, o outro também no dia da elição pediu à multidão: “se eu errar, corrijam-me”.
Ambos foram peritos em humanismo,  próximos do povo, repletos de bom humor, gigantes na humildade e corajosos tanto na fidelidade à tradição como na atualização da Igreja. Não são santos apenas de um lugar ou de uma nação, são santos do mundo, padroeiros da humanidade. Fortes e decididos no ecumenismo e no diálogo com as culturas. Um fez o propósito de “ser bom até ao heroísmo”, o outro pediu perdão várias vezes pelos pecados dos filhos da Igreja e rezou pelo seu agressor após o atentado dizendo: “eu perdoo de coração ao irmão que me feriu”.
Ambos desde cedo foram jovens de fibra. Um, severo consigo mesmo, entregue à purificação do coração, moldado pelo livro “Imitação de Cristo” se santificou no cotidiano. O outro órfão de mãe aos 9 anos, ainda bem jovem com 19 anos e pobre já era operário, fazia teatros, escrevia poesias e se edificava vendo seu pai rezar de joelhos madrugada afora. Foram cristãos sinceros, devotos do Anjo da Guarda, de Maria Mãe de Deus e de São José. Desde pequenos foram coroinhas cativados pela santidade dos seus párocos.
Ambos não quiseram ser prisioneiros dentro dos muros do Vaticano. Eram pastores, não apenas administradores. Peregrinaram pelas paróquias de Roma, pela Itália e pelo mundo. Um recebeu, um jovem jornalista que foi barrado pela segurança do Vaticano e disse: “Franco, eu agora sou Papa, mas, sou sempre o mesmo. Só mudei de nome e de vestes”. O outro, acolheu seu colega que deixou o ministério, tornou-se habitante de rua em Roma. Foi encontrado na praça São Pedro. O Papa soube do fato, mandou-o chamar. Ao recebê-lo disse: “atenda-me em confissão, por favor”, confessou-se com o ex-colega no sacerdócio, agora habitante de rua.
Nossos dois novos santos visitaram os hospitais e cárceres de Roma, estiveram nas periferias da cidade, ajoelharam-se diante do túmulo de Pedro e de seus antecessores. Um foi no inicio do sacerdócio, simples vigário paroquial e capelão entre as vítimas da guerra. O outro, chegou de Roma doutorado em filosofia e teologia. Foi de carroça e depois a pé até à pequena paróquia do interior, para ser vigário paroquial. Um cachorrinho veio ao encontro dele. A cidadezinha tinha sido devastada pelos nazistas. Antes de bater na porta da casa paroquial, ajoelhou-se e beijou o chão. São João XXIII e São João Paulo II foram grandes na humildade e humildes na grandeza.
 São João XXIII nos ajude a ser santos, simples e bons. São João Paulo II nos cumule de ardor missionário e de grande amor pela Igreja. Nos santos a graça de Cristo é vitoriosa. Eles são exemplos de fé para serem imitados.

Dom Orlando Brandes

11/07/2013

TESTEMUNHO DO JOVEM MATIAS


“O nosso primeiro serviço ao Reino de Deus é o anuncio de Cristo e da sua mensagem, com a palavra e com a vida” [...] (Mc 2,2).

Ser missionário é responder ao chamado que Cristo nos faz constantemente de ir e anunciar 

o  Evangelho a todos os povos.  Nossa  missão dentro da Igreja começa quando, pelo batismo, recebemos o chamado a sermos: “sacerdote, profeta e rei”, no serviço ao Reino de Deus. Sacerdote porque participamos do sacerdócio de Cristo, tornando-nos “outro Cristo”. Ser cristão é tornar-se profeta, porque devemos anunciar o plano de Deus e denunciar o que a ele se opõe. Como rei, nós servimos aos irmãos e à comunidade, e somos também herdeiros do Reino de Deus. E por esta graça nos tornamos membros vivos da Igreja.
Não sei dizer ao certo se alguém influenciou diretamente a minha vocação. O que lembro é que ainda criança, com pouco mais de 6 anos, dizia que queria ser padre. Fui coroinha até a adolescência, e desde daquela época meu desejo vocacional só aumentou, e fui aprendendo sobre a palavra de Deus e sentia cada vez mais o amor de Cristo em meu coração. Fiz encontros vocacionais, participei de pastorais e movimentos jovens, e tudo contribui para dar o meu sim a Deus. Mas antes de caminhar nesta direção vivi como qualquer outro jovem, sempre em busca de sonhos e de realizações, trabalhei, namorei, estudei numa universidade, e sempre me questionava se estava no lugar certo, se realmente era esta a minha “missão”, pois o coração era dividido entre dois “amores”, viver como leigo, ou seguir a vocação sacerdotal.

Com o tempo, em um momento da minha vida em que tudo caminhava muito bem, em eu que poderia fazer tanta coisa, pois tinha um bom emprego, um bom salário, poderia ter “luxos” e vivenciar “prazeres”, ou encontrar a mãe dos meus futuros filhos, decidi parar e repensar meus objetivos, e disse o meu sim para Deus. Respondi sim a vocação religiosa e missionária, junto aos Missionários Xaverianos, e estou seguindo o caminho formativo rumo ao sacerdócio missionário.

A missão nos chama e a Igreja necessita de pessoas que abracem a causa de anunciar a Boa Nova. Precisa de jovens que com a sua juventude, agarrem o propósito de levar Jesus a todos os povos. Vivemos em tempos onde é difícil seguir sem ser tentado pelo mundo, mas como nos diz São Paulo: ''vivemos no mundo, mas não pertencemos a ele''. A única certeza que temos é que: estamos aqui de passagem,  e se faz necessário querermos e almejarmos o céu, a glória eterna.

Como consagrado sigo o propósito de proclamar a todos que Jesus Cristo é o nosso Salvador. O mundo está justamente nos mostrando o contrário, vive como se Deus não existisse, e tem feito de tudo para que as pessoas se afastem Dele. Prega-se que não é possível viver a santidade, que é coisa do passado ir e seguir os ensinamentos da Igreja, mas a força do jovem é grande e mostra a todos que é maravilhoso ser cristão, ser de Deus, buscar a Deus e torná-lo conhecido por todos.

Sou feliz em seguir a vocação religiosa, buscando servir o Reino de Deus. Vivo a missão de batizado e consagrado. Como jovem, não é fácil viver como consagrado no mundo de hoje, mas a força vem D’aquele que primeiro nos amou. Portanto, ser religioso, religiosa ou vocacionado, é responder ao grande amor de Deus. Quando decidimos pela vocação, não perdemos nada na vida, mas nos é acrescentado “bens e amores” ainda maiores que, de outra forma não poderíamos conseguir: os bens recebidos são as experiências que podemos fazer como missionários pelo mundo inteiro, aprendendo da vida e da cultura de tantos povos, e os amores são: carinho, afeto e gratidão que recebemos ao sermos acolhidos por novos país, mães e irmãos que Deus vai nos apresentando no dia-a-dia da missão.

                           Atenciosamente,
                                                               Matias Filho


10/18/2013

“DEIXE-SE SURPREENDER POR DEUS”

30 ANOS DE SACERDOTE DO PADRE JOÃO

Meu irmão e irmã de caminhada
Tem coisas que não dá pra guardar só para a gente. Sinto-me um vaso pequeno por tanto amor recebido. Partilho com você um pouco deste amor, presente de Deus, de tanta gente que passaram a fazer parte em minha vida e você também colaborou neste caminho.
À você a quem fui chamado a estar muito próximo, partilho algumas surpresas que Deus foi me fazendo na minha caminhada. Retomo dois textos bíblicos que se tornaram marcas, bandeiras, ícones em minha vida. O primeiro vem da Festa de Caná da Galiléia e o Papa Francisco me fez retornar à fonte: “quando batemos na porta de Maria, ela nos apresenta Jesus” e nos diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). O segundo vem de DT 32,7-10 onde somos chamados a recordar os dias passados e contar para as gerações que Deus nos guardou com carinho. São Guido Maria Conforti, fundador da minha e nossa família xaveriana dizia: “Deus não podia ter sido melhor para conosco”.

        Ao celebrar 30 anos de minha vida sacerdotal, não posso me esquecer que Deus me proporcionou e continua me presenteando com muitas experiências bonitas de sua graça. Vejam só:

1-    A experiência do dom da vida: agradeço de coração a Deus e a meus pais por terem me deixado nascer sendo eu um dos últimos de quase 20 irmãos. Por isso, faço minha esta oração, este cântico: “Senhor da vida, seu amor nos faz recomeçar. Eu sei que a nossa vida, é vida perdida pra quem não amar. Bendito seja o Deus da vida.

   2-    A experiência de ser amado por Deus: sentir-se amado por Deus faz a gente vibrar com a vida, apostar na esperança e sonhar que um mundo melhor é sempre possível. Ao mesmo tempo que somos amados, somos chamados a amar. Esta é uma grande dívida que temos para com Deus: sermos testemunhas do seu amor cheio de compaixão.

3-    A experiência da vocação cristã : louvo sempre a Deus pela fé que recebi do berço de minha família e que foi alimentada na minha comunidade, na minha caminhada vocacional e missionária, tornando-se uma chama que arde e me abre sempre mais para a ação do Espírito Santo.

4-    A experiência de oração: como os primeiros discípulos, também eu como discípulo missionário de Jesus Cristo peço sempre a Ele, “ensina-me a rezar”. Dai-me “ouvidos de discípulo” para lhe escutar, assim como “escutar os clamores do seu povo”. Abre os meus olhos para um olhar de fé, de esperança e os meus lábios para cantar a sua ação na história.
Toma o meu coração e conserta-o para que eu possa testemunhar com toda a minha vida o seu amor misericordioso.

   5-    A experiência de um chamado especial de Deus: não tenho palavras para manifestar a minha gratidão a Deus pelo dom do sacerdócio com o qual Ele me ungiu e pela minha consagração missionária fazendo parte da Congregação dos Missionários Xaverianos que me acolheu e me desafia a ser sempre mais de Deus e à serviço do seu povo, sobretudo daqueles que ainda não fizeram a experiência da ternura e da bondade de Deus.

6-    A experiência da caminhada com o povo de Deus: Não me canso de louvar a Deus por tantas experiências bonitas com o seu povo  em tantos lugares e comunidades por onde passei. Quanta bondade, acolhimento, alegria, fé, espírito de serviço, gratidão, esperança, amor... Quanta graça, Senhor! “Somente a sua graça me basta e mais nada”.

7-    A experiência da amizade: Quantos corações amigos encontrei na vida,
sobretudo nestes 30 anos de sacerdócio que vou celebrar em outubro deste ano. Amigos com os quais partilhei a minha vida. Mães e pais amigos que me acolheram como filho; filhos e filhas que me acolheram como irmão; jovens, adolescentes e crianças que me acolheram como pai. Quantos padres, bispos, consagradas e consagrados que me ajudaram a viver a minha consagração. Quantos leigos e leigas que me encantam  pela disponibilidade, entusiasmo, pelo espírito de serviço e fraternidade, espírito missionário, alguns até assumindo como leigos missionários xaverianos. Deus é sempre criativo e seu carinho de verdadeira amizade nos renova a cada dia.

8-    A experiência da missão além fronteiras: Nunca estive tão perto, tão próximo de Deus como nos dez anos em que fui presenteado por Ele com a missão em Moçambique. Os primeiros sentimentos e as primeiras palavras que saíram do meu coração, ao pisar naquele chão bendito, foi: Deus está aqui! Quanto mais próximo daquele povo pobre mais aumentava este sentimento. Vibrei com o Papa Francisco quando ele
disse: ”precisamos ser uma Igreja pobre a serviço dos mais pobres”. Precisamos ser cada vez mais próximos, sobretudo daqueles que mais precisam da nossa solidariedade.

   9-    A experiência de propor o dom da vocação e acompanhar os vocacionados: precisamos crescer na paixão por aquilo que fazemos à partir da escolha de vida que fazemos. Deus é sempre “Com-Paixão”, por isso tem o poder de tocar nos corações e despertar os sonhos que ele colocou dentro de cada um dos seus filhos e filhas. Faço com prazer a minha missão de propor aos jovens o chamado de Deus e acompanhá-los em seu discernimento. Precisamos ser geradores desta vida que muitas vezes fica em sonhos frustrados porque não tocamos no coração das pessoas por não vivermos em profundidade a nossa vocação. Precisamos apostar na juventude pois Deus continua chamando e sonhando com eles . Diga como o salmista e como Maria: “Eis que venho, com prazer, fazer a vossa vontade, Senhor”.

10-                       A experiência da cruz e da ressurreição: Deus sempre nos surpreende com seu amor. Deixou o seu Filho Jesus morrer pregado na cruz pela nossa salvação. Um instrumento de maldição tornou-se instrumento de paixão, de vida em plenitude. Nestes últimos dias ele me surpreendeu, após um exame no intestino  com a doença de dois pólipos cancerígenos: um de alto grau, outro de grau menor. Recebi esta notícia no dia da chegada do Papa Francisco no Brasil. Coloquei-me nas
mãos de Deus pedindo a  intercessão de Nossa Senhora Aparecida e de São Guido Maria Conforti. O meu pedido foi este: “Senhor, se for para crescer na sua graça, faça-se a sua vontade e, se não for para crescer na sua graça, faça-se a minha vontade, pode me levar, pois não quero perder tantas graças que recebi. No domingo da despedida do Papa Francisco acordei com muita dor no
intestino, coisa que nunca tive e,  celebrando a Santa Missa das 10,30 hs na Igreja Bom Pastor, em Curitiba, no final da homilia, convidei o povo a olharmos para a Imagem de Nossa Senhora Aparecida com aquele olhar do Papa Francisco, em Aparecida, pedindo força para sua missão e para a juventude. Desde aquele momento já não sei mais o que é dor e tenho certeza que Deus me curou. Estou sendo acompanhado pela medicina e os próprios médicos me incentivaram a contar a ação de Deus, sobretudo por terem descoberto ainda no início, tornando-se mais fácil de cirurgia. Porém, o milagre maior foi o de sentir um Deus muito próximo de mim, por ter aumentado a minha fé e de renovar com maior ardor missionário a minha consagração e o meu sacerdócio  apostando sempre mais no Carisma e na espiritualidade missionária de S. Guido Maria Conforti.

         Muito Obrigado, Senhor, por este grande presente que me deu para que eu pudesse estar celebrando os 30 anos de minha vida sacerdotal acolhendo com muita fé e alegria as surpresas do seu amor para comigo e renova-me em minha consagração, o meu sacerdócio sempre em vista da missão.

 Finalizo propondo à você as três posturas com as quais o Papa Francisco nos desafiou:
a)  Conserve sempre a esperança
b)  Deixe-se surpreender por Deus
c)   Viva com alegria a sua fé.

Pe. João Bortoloci Filho

            joaobortoloci@bol.com.br
ESTÁGIO VOCACIONAL EM CURITIBA: de 1 à 3 de novembro
ASSEMBLÉIA DOS LEIGOS MISSIONÁRIOS XAVERIANOS
EM LARANJEIRAS DO SUL: de 15 à 16 de novembro

3/15/2013

PAPA FRANCISCO


Dom Demétrio Valentini
Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira até novembro de 2011
Adital

      Chega ao fim a grande expectativa. Na pessoa do Cardeal Jorge Mario Bergoglio temos o novo Papa, que escolheu o nome de Francisco.

       Sua eleição pegou todo mundo de surpresa. Por mais que as especulações tivessem desenhado os diversos cenários para o desfecho do conclave, ninguém apostava no Cardeal Bergoglio. Quando muito, alguns ponderavam que ele poderia, isto sim, influenciar eleitores, levando-os a se inclinarem para um lado ou para outro. Mas ninguém imaginava que os votos convergissem, tão rápido, para ele mesmo.
      O conclave teve a mesma duração do anterior, quando foi eleito o Cardeal Ratzinger, depois de cinco votações. O mesmo número de agora. Mas com uma diferença muito significativa: da outra vez, o Cardeal Ratzinger era franco favorito. Desde vez, a proeza de Bergoglio foi muito mais expressiva. E denota um apoio massivo e rápido, que os cardeais lhe deram.
     Na busca de entender o que aconteceu, e de projetar o que vai acontecer, ficamos atentos a todos os sintomas, alguns mais, outros menos evidentes.
O nome, por exemplo, que ele assumiu, revela uma clara identificação com um leque de valores evangélicos e eclesiais testemunhados por São Francisco de Assis. Entre os quais está, sem dúvida, a simplicidade de vida, que caracteriza a personalidade do novo Papa, que ele vivencia não só de maneira espontânea, mas também assumida, como ele fez questão de enfatizar com a escolha deste nome.
    Outra insistência, em suas breves palavras de apresentação como Papa diante da multidão na Praça São Pedro, foi a maneira como ele se referiu ao Papa Bento XVI, chamando-o de "bispo emérito de Roma”. E depois, ao se referir à função do conclave, afirmou que o conclave tinha a missão de encontrar um "bispo para a Roma”.
Esta insistência em vincular a missão do Papa com sua condição de "Bispo de Roma” é muito significativa. Ela aponta para uma prática da "colegialidade episcopal”, em que cada bispo está vinculado a uma "Igreja Particular”, sendo que a Igreja no mundo resulta da comunhão de todas as Igrejas Locais, de onde emerge a importância especial da Igreja de Roma, como símbolo da comunhão fraterna entre todas as Igrejas.
     Em todo o caso, esta insistência revela um claro posicionamento eclesial, que sinaliza para a retomada da renovação empreendida pelo Concílio Vaticano II.
Outra observação pode ser feita, conferindo sua idade, e o fato já ter sido candidato a Papa no outro conclave. Os cardeais estão ainda apostando em membros da "velha guarda”. Os novos, talvez mais vistosos, e mais capacitados, não estão ainda recebendo a incumbência.
Isto parece sugerir que existe uma conta a pagar, que vem da geração anterior, e que podemos identificar com o desafio de retomar as generosas propostas de reforma eclesial, sugeridas pelo Concílio.
      Tudo indica, portanto, que a eleição do Papa Francisco avaliza um ambiente mais aberto e mais receptivo à retomada do Concílio, nas formas que esta iniciativa poderá comportar.
Outra atitude surpreendente do Papa Francisco foi na hora de dar a famosa bênção "Urbi et Orbi”, isto é, "para a cidade e para o mundo”: antes de ele dar esta bênção ao povo, ele mesmo pediu que o povo invocasse sobre o Papa a bênção de Deus!
     Não deixa de ser uma visão de Igreja impregnada dos ensinamentos do Concílio, que nos falam da Igreja como "Povo de Deus”, onde todos são corresponsáveis pela missão.
Em todo o caso, temos pela primeira vez um Papa da América Latina, pela primeira vez um papa jesuíta fica, e a primeira vez que um papa escolhe o nome de Francisco.
Pelo visto, temos mais novidades pela frente. Se ele pediu que o povo o abençoasse, podemos dizer ao Papa Francisco: vá em frente, e conte com a gente!

     Faço minha estas palavras de Dom Demétrio e procuremos vivenciar a Fraternidade de S. Francisco de Assis e o Espírito Missionário de S. Francisco Xavier.

Pe. João Bortoloci Filho

1/06/2013

Missão é sair...

“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei” (Gn 12, 1). Assim começa a história de Abraão e, portanto a história do povo de Israel, como relata o livro do Gênesis. Sair de onde estamos estabelecidos, onde está tudo organizado, onde estamos acostumados. 
Sair da sua terra como Abraão, várias pessoas foram convidadas a fazê-lo. Mas podemos sair também da nossa casa para ir ao encontro da realidade que nos cerca, para ir ao encontro das pessoas tão perto de nós e tão longe ao mesmo tempo, que, às vezes, nem sequer conhecemos o nome!

Foi isso que fez Moisés: “ Naqueles dias, Moisés cresceu e saiu para ver os seus irmãos e , viu as tarefas  que pesavam” (Ex 2, 11). Ele saiu do palácio onde estava levando uma vida tranquila, para ver a realidade em que vivam seus irmãos de sangue. Após sua intervenção mal sucedida, ele teve que sair até do Egito e se refugiar em Madiã. Foi de lá que ele saiu para a sua missão libertadora.

Desinstalar-se

A missão começa desinstalando, porque parte de um desejo de comunicar uma boa nova. É como um fogo que arde por dentro, como se exprime o profeta Jeremias: “Quando eu pensava: não me lembrarei dele, já não falarei em seu nome! Então isso era no meu coração um fogo abrasador” (Jr 20, 9). A missão nos faz quebrar as barreiras da discriminação, seja social, racial ou religiosa. Por isso a missão é universal. Abraão vai de Ur da Caldeia até Harã, de Harã até Canaã, de Canaã até o deserto do Negueb, e do deserto de Negueb até o Egito, “de acampamento em acampamento” (Gn 12, 9).

O missionário vai onde Deus o chama, assim como Abraão, Pe. João já foi de Piracicaba (Brasil)  à Moçambique (África), e agora neste início de ano (2013) sai de Hortolândia indo trabalhar em Curitiba. O missionário não se prende a um lugar, a um grupo, a uma família, ele vai sempre mais para frente. Nós teremos oportunidade de ver isso também no livro dos Atos dos Apóstolos com os grandes missionários Paulo de tarso, Barnabé, Timóteo... eles saem cada vez mais para longe, até as extremidades da terra. A missão recebida por Abraão o torna benção para todos os clãs da terra” (Gn 12, 3).

Benção

“Sê uma benção!” O missionário é uma benção para todas as pessoas que ele encontra pelas palavras que ele traz, mas também pelas atitudes que ele toma perante as pessoas. Se animado pelo Espírito Santo, ele irradia os seus frutos: “amor, alegria, paz, bondade, paciência, mansidão ...” (Gl 5, 22).

"Vai, vai, missionário do Senhor!"

6/21/2012

O VÔO DE MINHA VIDA

Por: Pe. Giovanni Mezzadri

Pe. Giovanni Mezzadri, conta como se tornou missionário xaveriano e qual foi o importante papel de um santo frei capuchino na sua caminhada. Atualmente é Vice Reitor do Seminário Xaveriano em Londrina –Pr.

Nasci em Parma, na Itália, próximo à Casa Mãe das Missionárias de Maria – Xaverianas. As mulheres da paróquia, como minha mãe, participavam freqüentemente das palestras das missionárias, sobretudo da fundadora Madre Celestina Bottego. As missionárias incentivavam as mulheres a rezar muito pelos povos do mundo inteiro, e a consagrar seus filhos à Nossa Senhora para as missões. Destas consagrações saíram um Bispo, dois padres xaverianos, dois padres diocesanos e várias Irmãs.

Minha mãe morreu quando eu tinha nove anos de idade. Meu pai casou-se novamente e a segunda mãe nos acudiu com muito amor.

Na minha família recebíamos sempre a imprensa missionária dos xaverianos. Líamos com gosto as “aventuras” dos padres que trabalhavam na China. Um dia, num desses jornais, apareceu um artigo que falava dos poucos evangelizadores que havia na América Latina e que tinha um seminário que acolhia jovens para se tornarem missionários. Aquele artigo foi a rede que Jesus lançou para me apanhar. Infelizmente, porém, não fui generoso. Procurei escapar da rede, sufocar este chamado.

Fui trabalhar de torneiro mecânico numa firma de Parma. À noite estudava desenho técnico.

Depois fui para Ravenna, numa grande firma com três mil operários e ganhava bem melhor. O clima das fábricas naquele tempo era impregnado de anticlericalismo. Mas os missionários eram poupados das críticas, pois até os mais fanáticos comunistas tinham respeito para com a dedicação e a abnegação deles.

Meu objetivo era formar uma família. Namorei, mas depois de três meses desisti. Precisava antes resolver algo que não me deixava tranqüilo. Aquela moça não merecia ser enganada, pois eu ainda não sabia bem que rumo tomar na minha vida.

Tinha paixão por aviões e montava modelos de plástico: sonhava voar. Um dia, em Ravenna, surgiu um concurso para participar de um curso gratuito de pilotagem. Ganhei a vaga e consegui tornar-me piloto. Embalado pelo sucesso, e devendo cumprir com o serviço militar obrigatório, fui para a aeronáutica onde fiz o pedido de entrar na Academia para dirigir os aviões a jato.

Neste período, um primo meu convidou-me para ir a São Giovanni Rotondo onde tinha um tal de padre Pio que tinha o dom de ler o coração das pessoas. Ele estava precisando muito de uma orientação.

Quando chegamos, precisamos ficar três dias num hotel até que chegasse a nossa vez de sermos atendidos. Participávamos da Missa presidida por padre Pio todas as manhãs às 5h30, com a igreja sempre lotada de pessoas do mundo todo. A Missa durava quase duas horas. Padre Pio não falava nada, estava muito absorvido, concentrado no mistério que de uma certa maneira estava revivendo.

Quando terminava a Missa todos se aproximavam dele para beijar-lhe as mãos cobertas com uma luva para proteger as chagas, os estigmas, que ele já tinha recebido a muito tempo. Com as crianças era muito carinhoso, mas com os devotos exagerados era meio impaciente e os afastava de maneira áspera.

Depois de um cafezinho entrava no confessionário. Confessava muito mais os homens porque ele dizia que eram mais pecadores. Quando chegou a minha vez, contei-lhe que sentia uma certa atração pela vida missionária. Ele me respondeu de maneira severa: “que atração, que nada ... são três anos que você está resistindo ao chamado de Deus!”. Saí de lá chorando.

Quando voltei ao quartel da aeronáutica, fiz o pedido de entrar no seminário xaveriano.

Desse momento em diante Padre Pio sempre me acompanhou com a sua proteção ao longo de todo o vôo de minha vida.

4/06/2012

LEIGOS E LEIGAS NO PROTAGONISMO DA EVANGELIZAÇÃO

Por: Dom Milton Kenan Júnior (Região Episcopal Brasilândia – SP)


A expressão não é nova, ela surge na Conferência de Santo Domingo (1992): “Que todos os leigos sejam protagonistas da Nova Evangelização, da promoção humana e da cultura cristã.” (n.97) (...) “Um laicato, bem-estruturado com formação permanente, maduro e comprometido, é o sinal de Igrejas Particulares que têm tomado muito a sério o compromisso da Nova Evangelização.” (n.103).

Hoje, talvez, precisássemos recuperar a intuição que o Episcopado Latino-americano assumiu, na Conferência de Santo Domingo, quando fala do “protagonismo dos leigos”; embora na Conferência de Aparecida essa expressão não apareça nenhuma vez. Falar de protagonismo, é falar do lugar de importância que os leigos têm na ação evangelizadora, é falar do seu papel insubstituível, imprescindível, na transformação da realidade que vivemos, marcada pela exclusão e pela violência.

Os leigos são protagonistas, afirmaram os bispos em Santo Domingo, ou seja, são os agentes principais no esforço da Igreja em dialogar com o mundo e apresentar os valores do Evangelho num tempo de tantos contra-valores.

Nesse sentido, o Documento de Aparecida e agora o das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil, DGAE 2011-2015, ressaltam dois princípios de grande valor e importância.

O primeiro princípio é o da corresponsabilidade. Leigos e Leigas devem participar, como sujeitos, com vez e voz, na elaboração dos programas pastorais, nos centros de discussão e decisão nas Igrejas Particulares. Referindo-se ao projeto pastoral da Diocese, o Documento de Aparecida afirma: “Os leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões, do planejamento e da execução.” (n.371).  Não podem, portanto, verem reduzida a sua participação apenas ao momento de encaminhar e realizar os programas, mas sentirem-se participantes desde o início, por força da sua condição de cristão batizado, habilitado pelos sacramentos do Batismo e da Confirmação, a participar plenamente da vida da Igreja.

É ainda o Documento de Aparecida que esclarece: “A evangelização do Continente, dizia-nos o papa João Paulo II, não pode realizar-se hoje sem a colaboração dos fiéis leigos. Hão de ser parte ativa e criativa na elaboração e execução de projetos pastorais a favor da comunidade. Isso exige, da parte dos pastores, maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o “ser” e o “fazer” do leigo na Igreja, que por seu batismo e sua confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo.” (n.213).

As DGAE 2011-2015 ressaltam: “Os leigos, corresponsáveis com o ministério ordenado, atuando nessas assembleias, conselhos e comissões, tornam-se cada vez mais envolvidos no planejamento, na execução e na avaliação de tudo que a comunidade vive e faz.” (n.104.c).

O segundo princípio é o da missão. Os Documentos do Episcopado Latino-americano afirmam exaustivamente que o campo específico da ação dos leigos e leigas é o das realidades onde vivem e trabalham, ou seja, é o mundo da família, do trabalho, da cultura, da política, do lazer, da arte, da comunicação, da universidade etc.

Em função disso, “a formação dos leigos e leigas deve contribuir, antes de mais nada, para sua atuação como discípulos missionários no mundo, na perspectiva do diálogo e da transformação da sociedade. É urgente uma formação específica para que possam ter incidência significativa nos diferentes campos, sobretudo ‘no vasto mundo da política, da realidade social e da economia, como também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos meios de comunicação e de outras realidades abertas à evangelização’ (EN 70).” (DAp 283).

As DGAE 2011-2015 incentivam a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, nos Conselhos de Direitos, em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar a convivência pacífica, no fortalecimento da sociedade civil, e de controle social. Destaca também a participação na busca de políticas públicas que ofereçam as condições necessárias ao bem-estar de pessoas, famílias e povos; e a formação de pensadores e pessoas que estejam nos níveis de decisão evangelizando com especial atenção e empenho. (cf. n.115-117).

Entre os diversos espaços em que a presença dos leigos e leigas, hoje, é imprescindível destacam-se: o mundo universitário, o mundo da comunicação, e a presença pastoral junto dos políticos e formadores de opinião no mundo do trabalho, dirigentes sindicais e comunitários (n.117).

Há, portanto, no pensamento dos bispos latino-americanos e brasileiros uma condição e uma exigência para o protagonismo dos leigos. A condição é de que leigos e leigas possam ocupar o lugar que lhes cabe na vida das comunidades, sentindo-se, de fato, como sujeitos corresponsáveis na elaboração e realização de projetos e programas de evangelização. E a exigência é a sua atuação evangélica nas realidades onde vivem e atuam, para que à semelhança do fermento possam levedar toda realidade humana com a força do Evangelho.

Este é o grande desafio que hoje não só leigos e leigas enfrentam, mas todo o corpo eclesial: superar o conceito de leigo como inferior, subalterno e destinatário da ação evangelizadora; e formar leigos e leigas para que possam, nas realidades que lhe são específicas, agir como agentes eclesiais, discípulos missionários de Jesus Cristo.

Ao falar do protagonismo dos leigos é indispensável falar de verdadeira conversão pastoral, como é proposta pelo Documento de Aparecida, no espírito da comunhão e libertação (cf. n.368), ultrapassando uma pastoral de mera conversão para uma pastoral decididamente missionária (n.370). 

Oxalá leigos e leigas possam exercer seu protagonismo na vida de nossas comunidades eclesiais e assumirem com renovado entusiasmo sua missão nas realidades onde, na sua maioria e na maior parte do seu tempo, estão. Isso exige coragem! O Espírito de Deus certamente não lhes faltará

4/03/2012

OS FIÉIS LEIGOS, JUNTAMENTE COM OS SACERDOTES, RELIGIOSOS E RELIGIOSAS, FORMAM O ÚNICO POVO DE DEUS E CORPO DE CRISTO (JOÃO PAULO II)

Por: Francisco Batista (Leigo Missionário Xaveriano em Moçambique)

 O leigo na Igreja         
  
Várias cartas encíclicas, exortações apostólicas e documentos episcopais destacam o papel do leigo na igreja. A Exortação Apostólica de João Paulo II, Christifideles Laici, destaca que “novas situações, tanto eclesiais como sociais, económicas, politicas, culturais, reclama hoje, com uma força toda particular a ação dos fiéis leigos.
João Paulo II continua a reflexão fazendo referência das imagens evangélicas do sal, luz e fermento, que se referiam indistintamente a todos os discípulos de Jesus e têm uma específica explicação aos fiéis leigos. Essas imagens são maravilhosamente significativas, porque fala da inserção e participação profunda do leigo no mundo, bem como sua novidade e originalidade de uma inserção e dedicação destinada à difusão do evangelho que salva (Cf. Christifideles Laici-).
É absolutamente necessário que cada fiel leigo tenha sempre viva a consciência de ser um membro da igreja, a que se confia um cargo original insubstituível e indelegável, que deverá desempenhar para o bem de todos (Cf. Christifideles Laici- 28) 
Os fieis leigos, precisamente por serem fiéis da igreja, tem por vocação e por missão anunciar o evangelho, pois para essa obra foram habilitados e nela emprenhados pelo sacramento da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo  (Cf. Christifideles Laici-33).
            
O leigo missionário

Com relação ao leigo que desenvolve actividades no campo da missão, João Paulo II afirmou que nesse campo, a acção dos leigos parece cada vez mais preciosa e necessária. O Papa afirma que na ordem do senhor “ide por todo o mundo” continua a encontrar leigos generosos a ponto de sair do seu ambiente de vida, o seu trabalho, a sua região ou pátria, para ir, ao menos por um certo tempo, para zonas de missão.
O casal Áquila e Priscila (Cf. At 18; Rm 16, 3s), são citados pelo papa como testemunho de amor apaixonado por Cristo e pela igreja com sua actividade em terras de missão .   (Cf. Christifideles Laici-).

A vocação do leigo 

Sabemos das diversas actividades desenvolvidas pelos fiéis leigos na igreja universal e sua importância, pois a rica variedade da igreja encontra uma sua ulterior manifestação no seio de cada estado de vida. Assim, dentro do estado de vida laical há lugar para várias “vocações”, ou seja, vários caminhos espirituais e apostólicos que dizem respeito a cada fiel leigo.
No trilho de uma vocação laical “comum” florescem vocações laicais particulares, como é o caso de leigos engajados em acoes pastorais voltadas para as questões sociais, principalmente situações que clamam por intervenções imediatas, no caso da violação de direitos e quando ocorre situações que ferem a dignidade humana. 

O leigo na caminhada de transformação da sociedade  

Quando o leigo acolhe e anuncia o evangelho na força do espírito, a igreja torna-se comunidade evangelizada e evangelizadora e, precisamente por isso, faz-se serva dos homens e mulheres. Nela, os fiéis leigos participam da missão de servir a pessoa e a sociedade.
A igreja tem como o fim supremo o Reino de Deus, o qual “constitui na terra o gérmen e o início” e está inteiramente consagrada à glorificação do pai. Ma o reino é fonte de libertação plena e salvação total para os homens: com estes, por tanto, a igreja caminha e vive, real e intimamente solidária com sua história.   (Cf. Christifideles Laici-36).

O leigo na proclamação da paz e por justiça

Descobrir e ajudar a descobrir a dignidade inviolável de cada pessoa humana constitui uma tarefa essencial diria central e unificadora do serviço que a igreja, nela os fiéis leigos, são chamados a prestar à família dos homens e, de todas as criaturas terrenas, só o homem e a mulher são “pessoas”, sujeitos consciente e livre e, precisamente por isso, “centro e vértice”do universo.     (Cf. Christifideles Laici-37)
Diante de tantas realidades que nos salta aos olhos, percebemos que o chamado de Cristo para a promoção da dignidade da pessoa humana se torna cada vez mais frequente, pois estamos diante de estruturas que não promovem a vida. Na carta encíclica de Paulo VI, populorum progressio, ele já alertava que as excessivas disparidades económicas, sócias, culturais provocam, entre os povos, tensões, discórdias, e põem em perigo a paz.
Mas o papa Paulo VI já sublinhava que a caridade para com os pobres deve tornar-se mais atenta, activa e generosa, pois combater a miséria e lutar contra as injustiças, é promover não só o bem-estar mas também o progresso humano e espiritual de todos e, portanto, o bem comum da humanidade.
A paz não se reduz na ausência de guerra, mas constrói-se dia-dia, na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens. ( Cf. Populorum progressio-76.).     
O documento 62 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), faz ressonância e fortalece o que foi dito por João Paulo II na Exortação Apostólica Chistifideles Laici com relação ao serviço e participação na transformação da sociedade pelo bem dos pobres, destacando a competência do cristão leigo na actuação insubstituível na construção da sociedade justa e fraterna, a partir de sua condição e ambiente próprios, priorizando a luta contra a miséria e tudo que degrada a vida humana e a defesa intransigente da ética pública, contribuindo assim para a construção da paz com justiça.    

Para não concluir

Deus chama-me e envia-me como trabalhador para sua vinha; chama-me e envia-me a trabalhar para o advento do seu Reino na história: esta vocação e missão pessoal defini a dignidade e a responsabilidade de cada fiel leigo e constitui o ponto forte de toda a acção formativa, em ordem ao reconhecimento alegre e agradecido de tal dignidade e ao cumprimento fiel e generoso de tal responsabilidade (João Paulo II).
Aos irmãos que reconhecem tal valor e, avança numa perspectiva de valorização dos fieis leigos para contribuir na construção do reino de Deus.